ZéEdu SapoA gente tem que agradecer a quem criou esse formato de reinício da contagem dos dias do ano a cada doze meses, 365 nascer do sol. O efeito estimulante de zerar o game e ter a sensação de que tudo pode mudar neste começar de novo é forte e coletivo. Mesmo que no fundo anoiteça e amanheça exatamente igual, e os nossos compromissos, pendências, fantasmas, carências invadam o novo com cheiro de velharia. Por um tempo, o efeito está presente e vale a contagem regressiva. Sai nhaca, que fique no ano que já passou. Portanto, obrigado.
Se você está no pique, comece dando uma geral na casa, e eu conheço casas que precisam de alguns anos de tempo para tirar tudo que sobra e não faz a menor falta, a minha, por exemplo. Quando a gente olha e pensa no tudo que precisa, o primeiro impacto é: “não vai dar”. Mas é ano novo, recomeço, novos desafios, vida nova, dá… dá sim. Não olhe o todo, olhe cada cômodo, um por vez, e o que vai sair, nem da cartola do Copperfield sairia. Se você se enquadra nessa dica, mais uma vez pode usar a palavra do título, na versão agradecimento: obrigado.
Só que para dar o start nesse recomeço, têm algumas coisas que você é obrigado a fazer começando por respirar, sempre, sem interrupções. Essa obrigação é fácil, você nem se dá conta que faz, aliás, desde o começo foi natural, começou e não parou mais, e quando parar… esquece, já era.
Mas se quer continuar respirando, produzindo, consumindo, têm certas imposições que fazem parte, por exemplo, se você quer dirigir é obrigado a ter carteira de habilitação. Se quer viajar para fora do país, é obrigado a ter passaporte. Se quer eleger o seu candidato, é obrigado a ter título de eleitor, é obrigado a votar, pior, é obrigado a ver um monte de falcatruas, mazelas, picaretagens que aqueles que você elegeu, ou não, fazem enquanto dizem servir a população.
É obrigado a engolir sapos, muitos sapos, durante a vida toda. É obrigado a ser paciente, a ter fé e não desistir, mesmo que o ano termine no pior sufoco e comece como terminou.
Começo de ano, recomeço, boa hora para estabelecer o que é obrigação de verdade, e não aquela que a gente se impõe. Hora perfeita para você usar os dois sentidos da palavra obrigado.
Querer o bem das pessoas, ajudar, fazer o bem, sem olhar a quem, como dizia minha avó. Você não é obrigado, mas se fizer, pode ganhar um obrigado de volta.
Ser educado, gentil, prestativo, solidário, bem humorado, atencioso, amável, simpático, respeitoso, ninguém é obrigado a ser, mas se for, por algumas vezes, recebe um muito obrigado de agradecimento.
Já ser fiel também você não é obrigado a ser, o que pelo jeito vem sendo cada vez menos praticado, e raramente, mas muito dificilmente, e põe muito nisso, você vai ter um obrigado de reconhecimento. Até porque, você não fez mais que a obrigação, apesar de não ser obrigado.
Obrigado ou obrigado?
A vida está repleta, cheia de coisas que criamos para nos preencher, sufocar, motivar, tontear, muitas impostas, outras tantas recorrentes como consequência do turbilhão que nos envolve e que a gente acredita fazer parte da vida.
Este momento de dar uma geral nos nossos cômodos da casa e íntimos, para iniciar bem o ano, pode ser a melhor hora de praticar, sem obrigação, o agradecimento por tudo o que temos, por menor que seja. E pelo o que temos que engolir, por obrigação, que nos faz aprender e crescer. E pela oportunidade maior que tudo, a vida.
Obrigado.

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