Arthur FriedenreichÉ verdade que cada época é uma época, com seus fascínios, prazeres, dificuldades, alegrias, tristezas. As experiências vividas por cada um são guardadas em suas linhas do tempo, em suas caixas de história de vida, e quanto mais distantes nos encontramos do que foi vivido, reforçamos o que foi bom e o que não foi se perde nas páginas rasgadas do que é melhor não lembrar.
Talvez por isso, o passado ganha tons mais suaves e saborosos. E quando alguém abre a sua caixa e traz essas memórias para os que lá não estiveram, a conversa ganha pinceladas curiosas do que era e não é mais.
Lembro do meu avô contar do Arthur Friedenreich, El Tigre. Mulato, descendente de alemães, Fried só conseguiu atuar em grande clubes da elite branca, na época, em razão dessa descendência europeia, não se aceitava jogadores negros. E ele jogou nos maiores, começou no Germânia (1909), foi hexacampeão paulista pelo CA Paulistano, jogou no Santos, São Paulo, Flamengo. Mas não foi à primeira Copa do Mundo de 1930 no Uruguai porque o presidente da Liga Paulista impediu a presença de jogadores do estado porque não havia nenhum paulista na comissão técnica da Seleção Brasileira.
Para o meu avô, Friedenreich jogou mais do que o Pelé, e sua média de gols chega a ser maior do que a do atleta do século, incríveis 0,98 gols por jogo. Participou do primeiro jogo de um time brasileiro no exterior, 7×2 do Paulistano contra a seleção da França, o que valeu o apelido de “roi du football”, em 1925. Pois bem, Fried ia de bicicleta ao estádio da Vila Belmiro quando jogava pelo Santos. Outros tempos. Como na época do Pepe, ponta esquerda do Santos, que voltou para casa de bonde após um jogo histórico pelo Rio-São Paulo no Pacaembu, 7×6 na vitória contra o Palmeiras. Nem deu autógrafos, apenas contou para os passageiros que ouviram o jogo pelo radinho como tinha sido a partida. Certamente outros tempos.
“O tempo passa torcida brasileira”, e com ele passam nossos registros, memórias, lugares, que se não forem passados aos que entram no jogo, correm o risco de jamais terem existido. Cada um tem a sua lista do que foi e não mais é, do que havia e não se tem mais, do que se curtia e hoje faz falta.
Como o sanduiche de calabresa da Casa Califórnia com suco de tamarindo. Ou o filé de alho do Morais, ou o Parreirinha dos irmãos gêmeos Miro e Mario, fanáticos corintianos. Quem não foi, não trombou com a Inezita ou o Paulinho da Viola, mais um pouco, nunca houve Parreirinha na Conselheiro Nébias, nem na Av. Ipiranga ou na General Jardim.
Vai chegar um tempo em que ninguém mais vai falar do Quinta Avenida, o Itaú sempre vai ter estado lá, não vai ter dono português, brindes à vida, porres memoráveis, o Quinta não vai ter existido. E cada um que escale as memórias do seu tempo.
Vai chegar um tempo que não mais vai se cogitar chamar um contrabaixista, sax tenor ou um trompete para gravar, bastará um programador.
Vai chegar um tempo que não se discutirá sobre ética, caráter, ninguém discute sobre aquilo que não conhece.
Vai chegar um tempo em que o olho no olho vai ser só via tela, em conferências profissionais, ou entre amigos e familiares.
E quando este tempo chegar minha maior felicidade vai ser não estar aqui para testemunhar o quanto esses seres desconhecem da vida que não viverão.

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