Copa2“As bandeiras tremulando, a torcida delirando vendo a rede balançar”.
Os mais novos perderam, não assistiram no cinema, antes de começar o filme, o cinejornal do Canal 100. Era uma época que não existia celular, internet ou intervenções ao vivo com imagens do que acontecia pelo país e no mundo. Era nesse aperitivo, servido antes do prato principal, vindo de Hollywood, Cinecittà ou das nossas chanchadas nacionais, que a gente degustava registros exclusivos filmados em película, 35 mm. Desde a Palma de Ouro de Cannes para “O pagador de promessas”, o título mundial de boxe ganho por Éder Jofre, a inauguração de Brasília, a visita da Rainha Elizabeth, até a conquista da Copa do Mundo de 58, a despedida do Pelé, o show do Frank Sinatra no Maracanã. Tudo passava pela resenha semanal do Canal 100, em especial o maior futebol do mundo que na época não tinha igual. O Rei era nosso.
Carlos Niemeyer inovou na linguagem, na edição, na fotografia em preto e branco, colocando a câmera ao nível do campo, cobrindo os jogos dos magos da bola que bailavam quase sem tocar a grama do Maracanã, ao som de “Na cadência do Samba (Que bonito é)” de Waldir Calmon, hino ao samba que foi incorporado pelo esporte das multidões.
Câmera lenta, closes das jogadas, das expressões dos torcedores, da rede sendo estufada pela bola, detalhes da partida que não foram mostrados na TV, que nem replay tinha. Quem viu não esquece, e basta ouvir a música para a pele arrepiar, o coração acelerar, a mente viajar e trazer imagens que o tempo não apaga, jamais.
Era através do Canal 100 que a gente, que tinha o Pacaembu de palco para os shows dos nossos artistas paulistas, se familiarizava com os craques da cidade maravilhosa. Nilton Santos, que acaba de entrar para a seleção dos imortais que excursiona e encanta no outro plano, Didi, Gerson, Garrincha. Ahhh, aquelas pernas tortas que faziam que iam, paravam e partiam na fração de tempo perdida pelos marcadores, meros João, enfeitiçados pelo drible mais ensaiado e nunca bloqueado. Pura magia, pura candura de um futebol que se jogava pelo amor à arte, pelo prazer maior de quem primeiro satisfazia a si, com um talento que arrebatava a quem via. Era a alegria gerada pelos pés, era o amor que com amor se paga. Era o escudo no peito, na pele, na alma, o verdadeiro amor incondicional, que apenas se dá, e nada pede em troca. Que bonito é.
Zico, Ademir, Rivelino, Reinaldo, Tostão, Jair, e Ele, com o seu soco no ar. O desfile dos verdadeiros craques continua, sem tempo para terminar, sem desafinar, sem perder a classe, sem perder o brilho.
Pensar que a gente ia para ver o filme. Pensar que a gente tinha tudo isso e nem dava muita bola, talvez porque a gente vivia de bola cheia, a gente era o dono da bola.
Bola. Redonda como o planeta e que coloca o mundo aos seus pés.
Neste ano, a bola está parando de rolar, para no ano que vem voltar a entrar em campo com Copa do Mundo no Brasil. Uma jogada dos cartolas, dos desvios, das propinas, dos por fora, da política do pão e circo, que distrai e dribla a nossa visão, nosso querer, nossa razão.
A Copa sem o Canal 100. A Copa de quem prioriza entreter e desviar a atenção da falta de alicerce onde o gigante envaidecido e narcotizado fez sua morada. De quem prioriza suntuosos estádios em detrimento aos necessários investimentos na saúde, educação e infraestrutura.
De quem usa a paixão para iludir, enganar, trair, como só um cego amor é capaz de sofrer. Mas que é bonito, é.

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