41 A Novela da vida blogNão ando vendo novelas, decidi, de um tempos para cá, selecionar muito as mensagens que permito que os meus olhos e coração vejam, e as novelas estão no nível tolerância zero. Elas são, na verdade, apenas um reflexo do que se passa com quem as vê e a receita já desgastada, corroída, mal tratada, do embate do bem contra os malvados. Só que o nosso limite para malvadezas tem se estendido e parece que o limite do bom senso e do que é saudavelmente absorvível está por um triz.
Antigamente, bem antigamente, dar um golpe, não cumprir com o que foi acordado, ferir a ética, era um choque que prendia a atenção na trama. Claro que isso sempre existiu, mas escancarar como forma de comportamento explícito tinha impacto, talvez porque ficava pelos bastidores da vida real em um grupo relativamente pequeno em relação ao todo.
E a busca pelo impacto da mensagem foi cruzando fronteiras, nada criado, apenas revelado, floreado, decupado nos detalhes. Até chegar aos dias de hoje onde o neto matar o avô pela herança, o pai abusar do filho pelo desejo, a traição imperar na relação entre casais, o padre pedófilo, o político enfiar propina na cueca, não causa mais nenhum espanto, acontece praticamente todos os dia, não só na telinha, mas na vida. Por vezes, a telinha dá a sugestão para os personagens da vida real.
Alguém certamente vai dizer que nada disso é novidade, apenas a rede de notícias propaga instantaneamente e para todos. Pode ser, mas certamente, existia não com essa intensidade, e pior, naturalidade.
O mais sintomático é que todos fincam suas poltronas frente à fonte dos desejos, esperando pela hora da revanche, o momento da virada, que no caso nem é do bem se vingando do mal, agora é a que foi do bem, que virou do mal, dando uma lição no “mais mal”.
Claro que essa é apenas uma forma de entretenimento, não é para ser levada a sério, mas novela pós novela, o lixo de clichês parece se avolumar e acumular, até com atuações brilhantes, outras bem canastras, em um texto que gira e morre em sua própria mesmice. O que muda é o limite da maldade escancarada, de traição desmesurada, a ponto de um personagem ter vários rebentos em mais de um núcleo, dentro de uma costura mal feita, cheia de pontas e erros de continuidade. E o pior, a audiência aumenta e vai para as redes sociais comentar como essa trama pode ser tão ruim, chata, mas não deixa de assistir. Daria para se entreter com algo melhor.
Li, há alguns anos, o autor do folhetim das nove dizer que o malvado da vez merecia morrer por tudo o que ele fez e me vi perguntando “morrer é o pior castigo?”. Será que ser tirado do palco, com uma morte de serra elétrica, é o pior fim? E continuar assistindo a tudo isso é o prêmio dos bons?
Parece que os “bons” estão vibrando muito com os do “mal” se dando mal, vide os que foram recentemente para a prisão, que deveria ser natural para quem é bandido de verdade. E se eles morrem, aí sim, receberam o que mereciam.
Parece que a percepção do que é vida, e do que representa a morte também precisa ser revista, ou aprofundada, principalmente pelos os que pensam que vivem e, que na verdade, apenas sobrevivem, sem perder um só capítulo.

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