CampiCatO manto da noite acoberta o movimento daqueles que se aproveitam da penumbra para expor as suas garras. É quando o Jack sai à caça da sua próxima vítima prostituta, o lobisomem se transforma sob a lua cheia, a assombração assombra, as más intenções perambulam, as nossas atenções repousam.
É na calada da noite, quando todos os gatos são pardos ou nem gatos, no silêncio do breu, do Eu, que o seu, o meu, o nosso é afanado, surrupiado, desviado, subornado. E quando alguns poucos gatos pingados são descobertos, e julgados, escorraçados, condenados, trancafiados, acordamos do torpor para comemorar, tripudiar, espetando suas cabeças na ponta dos mastros da praça, como já fizeram com José, com João, com o Che, com o Bin.
E o dia amanhece e se percebe que nada parece mudar, na calada da noite ou com o sol a pino, os novos vampiros continuam a sugar o seu, o meu, o nosso. E os gatos que hoje estão na cela, amanhã já pularam o muro, e os outros que nem pegos foram continuam a vadiar, assaltar, ronronar, furtivamente à luz do dia ou pelas sombras das trevas.
E como em toda audiência a céu aberto, tem os que apontam o polegar para cima, e os que giram o polegar para baixo, como Césares do século XXI. Os que vibraram com a justiça, os que se indignaram com a arbitrariedade. Basta olhar para trás, para o time line da humanidade para perceber que faz parte, confiamos na justiça quando ela atende as nossas vontades, quando ela decide pelo que entendemos ser justo, do contrário, o véu da suspeita, da manobra, da injustiça irá pairar sinistro. Na verdade, não confiamos mais, em nada, em ninguém, e esse é o ponto que confunde.
Estranho, estranho este nosso momento.
Quando Bin Laden foi pego, o mundo todo comemorou, ou a maior parte dele porque os seus seguidores, apadrinhados, lamentaram.
Comemoraram um assassinato, comemoraram a morte. Tem alguma coisa errada com as nossas motivações.
Agora, comemoraram prisões, e abominaram também as mesmas prisões. Até porque bandido é sempre quem está do outro lado que o seu.
Estranho, estranho este nosso momento.
Ninguém discute que lugar de bandido é na cadeia, como é claro que isso vale para todos os bandidos, e se todos estivessem, não haveriam celas suficientes. Mas o que chama a atenção é que tem país que desativou quatro presídios por falta de inquilinos.
Muito estranho este nosso momento.
Celebramos mortes, invadimos empresas privadas, vibramos com prisões. Atacamos, defendemos, sempre em nome da justiça, que varia de acordo com os nossos interesses.
Definitivamente, bem estranho mesmo este nosso momento.
Enquanto isso, na calada da noite ou à luz do dia, os fios são mexidos, melhor uma prisão agora do que em ano de eleição, liberada. Os animais vagabundeiam enquanto a gente torce, protesta, vibra, toma partido. Ano que vem tem Copa.

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