IrmãsSegundo o dicionário, “gosto fundado na valorização demasiada do passado”. Dizem que este tipo de sentimento ataca conforme o passar do tempo, e basta fazer um elogio, uma menção mais enfática a algo que está lá atrás que alguém vem sabiamente nos alertar que o importante é olhar para frente.
E para não sermos rotulados (uma das atividades mais praticadas pelo ser humano) de saudosistas, pisamos em ovos quando nos preparamos para registrar o quanto este mundo já foi bom e, para muitos, melhor.
Quando me juntei ao movimente pelo tombamento do Belas Artes, tive um pensamento, num átimo de segundo, sobre o meu direito de intervir nos direitos de posse do proprietário da escritura daquele imóvel em local tão valorizado da cidade. Neste átimo de tempo, que apaguei na mesma velocidade, tentei lembrar da última vez que fui assistir a um filme lá. Fazia tempo, muito tempo, e penso que grande parte dos que estavam empunhando a bandeira pelo Belas Artes também não iam há um bom tempo. E mesmo assim, estávamos tentando impedir que o dono do imóvel desse um destino financeiramente melhor para ele. Dá para manter um negócio sem que ele renda o suficiente não só para se pagar, mas também para gerar lucro?
Mas não importava, o importante era preservar, mesmo que a gente não frequentasse, ou mesmo que a gente não tivesse o direito, mesmo que fosse contrário a uma avaliação de custo benefício. Graças a quê? Ao nosso saudosismo. Apesar de no caso do Belas Artes, ele não era só passado, era presente, por que não futuro?
Quando a gente acaricia a nossa memória com os “bons tempos”, não dá para ser racional, é vital trazer o emocional no comando para chegarmos à conclusão que já vivemos tempos melhores. Sem saudosismos.
Saudosismo que não é coisa de velho, tem jovem que sente isso de tempos que nem viveu, talvez seu ser já passeasse por lá, vai saber.
Fico tentando entender a razão desse movimento que protege o que passou no vidrinho “dos melhores”. Acho que está ligado aos nossos outros “vidrinhos”, tem o do “prazeres”, o da “derrotas”, o da “vitórias”, claro, o do “melhor esquecer”, cada um com um nível de preenchimento diferente do outro. O que é certo, é que lá atrás eles estavam, todos, mais vazios do que cheios, e isso faz diferença nas nossas avaliações.
É também inquestionável que quem acompanhou em tempo real Beatles, Pelé, Jovem Guarda, Bossa Nova, e cada um que abra o seu vidrinho “dos melhores”, se sente incomodado com o nível geral de hoje. Não só com isso, mas com a velocidade de hoje, com o absurdo volume de informações descartáveis, a falta de atenção, de ética, de respeito, de verdade, e cada um que complete abrindo o seu vidrinho das críticas.
Depois de séculos, nós vivemos um momento de transição, com mudanças rápidas, e com vidros cheios fica mais desgastante. Daí o estresse e o culto ao que já passou, ao que já se produziu e viveu, até porque naquele ritmo mais lento, se degustava mais e, para muitos, melhor. Certamente pela distância entre o que foi e o que é, os momentos passados se tornam mais confortáveis frente ao que está por vir.
Complicado e sem alternativas, a não ser encarar. No fim, navegar é o que resta.

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