Dial– Acho que daqui um tempo, todo mundo vai precisar aprender a linguagem dos sinais.
– É? Por que?
– Sei lá, parece que está todo mundo surdo, presta atenção. As pessoas estão mais preocupadas em falar do que em ouvir. Enquanto um fala, o outro está só pensando no que vai dizer de volta, não está escutando, as vezes presente de corpo, não de alma. E se esse alguém fala ou digita uma opinião contrária, é o suficiente para que a “conversa” encerre sem um fim.
Dizem que vivemos um momento de mudança de era, certamente é um momento de transição, da forma como foi feito por dezenas de anos para uma nova forma que ainda não se sabe como será. E esta mudança é puxada pela tecnologia que parece atropelar diversas gerações que ainda não aprenderam a lidar com ela.
Dizem que vivemos a era da informação, mas quanto se filtra, sobra pouca informação útil. É muita, muita informação descartável, sem qualidade, um volume que gera ansiedade, confusão, dispersão e distorção de todos os tipos: valores, ética, prioridades, verdades. Um muito que vira pouco muito rápido, na mesma velocidade que, como um tsunami, traz toneladas dos mais diversos tipos de detritos e destroços fantasiados de celebridades voláteis, massacrante apelo ao consumo, falsos líderes e todas as variedades de ilusões.
É como ouvir a melhor música no volume errado, insuportável.
No fundo, tudo é uma questão de ajustar o volume certo, que varia de graduação de acordo com o momento e o que se ouve. A reação da voz com a importância que aquilo realmente merece. Do tom da resposta que não deve ser adiada, ao silêncio que fala mais do que um berro histérico.
Bastaria ajustar o volume. Da quantidade daquilo que se recebe, da intensidade daquilo que se coloca. Um mero ajuste, que esse nosso dia a dia de salve-se o que for mais oportuno torna a tarefa difícil, imprecisa, frustrante.
Ao mesmo tempo, para não ficarmos para trás, surfamos nas modernidades que nos engessa, que impõe condições que não confrontamos, e assim, reféns das descobertas que adotamos para nos confundir, perdemos o tempo de nos olhar, deletando spams intrometidos, twittando no máximo 140 caracteres.
E bastaria girar o botão, ajustar o que não precisa faltar nem se exceder, um simples equilíbrio de volume complicado para quem desaprendeu a ouvir.
Ouvir, para procurar entender. Ouvir, para saber reagir.
Pelo jeito vamos mesmo ter que aprender a linguagem dos sinais. Quem não sabe mais ouvir, não sabe mais ajustar o volume, nem da compreensão, nem da expressão. E aí, não vai encontrar respostas, nem no Posto Ipiranga.

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