O Assalto A– Vamos, rápido, passa já toda sua beleza… não embaça, não ou leva um teco.
– Calma, companheiro, não precisa ficar nervoso, eu não tenho beleza nenhuma pra te passar, até porque, essa coisa de roubar beleza é brincadeira de propaganda de TV, não existe isso.
– Não? Tem certeza? Então… então… agora danou… que merda, não consigo fazer nada direito, cacete!!
– Calma, vamos conversar, abaixa a arma, senta aqui, vem. Isso… agora me conta, onde tá pegando.
– Tá pegando que eu ferrado, fudido mesmo. Sem emprego, sem dinheiro, e agora sem mulher. Ela disse que eu sou feio e que ia procurar alguém melhor de vida e de cara. Depois de tudo o que eu fiz por ela, assumi os filhos dela… isso não é justo… que mundo a gente vive, meu Deus, só tem ladrão, gente querendo passar o outro pra trás, corrupto, mulher que não reconhece o amor que a gente dá, pode isso?
– É… difícil…
– Eu até comprei o desodorante, quer dizer, dei uma afanada, , sem grana… mas não adiantou nada, ela nem gostou do cheiro.
– E não funciona mesmo, é outra brincadeira de propaganda.
– Brincadeira mais boba, cara… eu desesperado… já pensei até em ser político, mas acho que não tenho estômo pra isso.
– Verdade, precisa ter muito estômago…
– E agora, o que eu faço?
– Humm… Já pensou em tentar um emprego fixo, com carteira assinada, direitinho? Você vai ter grana, ela vai te respeitar, até te achar bonito.
– Que nada, paga mal, aí não consigo comprar os trem de marca que ela curte, pra ganhar mais é um monte de exigência, estudo, mais fácil ser político. Eu tenho um vizinho que foi nessa, amigo do pastor, virou líder da comunidade, fez uns acordos com um vereador, entrou num esquema que tá se dando bem pra caramba.
– É, pode ser… mas você não tem estômago…
Num tenho não, muita bandalheira, fala uma coisa, faz outra, propina, não dá. Prefiro ser eu mesmo, já falo o que quero, se não tem vou lá e pego, mas não engano ninguém, mostro o berro e solicito. Mas agora, ela começou com essa que sou feio, você veio com essa que não dá pra roubar beleza… ferrou. Desculpa aí qualquer coisa, não foi nada pessoal, e você nem é tão bonito.
– Tudo bem… , pega uns trocos pra cerveja. O que você pensando em fazer?
– Valeu. Sei lá, o Toninho santista disse que acertou a vida, vou pensar…
– Como? O que fez o Toninho?
– Ah… ele foi pego num assalto e eu fui visitar no xadrez. Disse que está ótimo, a mulher ganhando uma grana com o tal do auxílio-reclusão, ela visita ele, dá umas três seguidas e não tem que aguentar a encheção da casa durante a semana. Dorme e come de graça, a comida é melhor do que a dela, então… sei lá. Se a Aninha topar me visitar, vai ser melhor do que agora.
– É…

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