Tunel 3Estranho o caminho que percorre o Expresso, muito estranho.
Você chega na estação com o bilhete já comprado sem saber para onde. E também diferença não faz, afinal, no colo, aparentemente seguro, aparentemente alimentado, de carinho, de atenção, pelo seio da vida, pelos braços do coração, não importa nem um pouco para onde o Expresso vai.
E as estações chegam, passam, e você é convidado a descer do colo, a caminhar por si, a descobrir a rota, palpitar nas curvas, no sobe e desce. E as estações chegam, passam, e o que parecia ser eternamente seguro passa a sofrer oscilações, mudanças de rotas, de companhias. E as estações chegam, passam, no caminho que não tem fim, que não tem fim, ô menina, que não tem fim.
Tem hora que você se vê cercado de outras pessoas, diferentes do começo da viagem, e escolhe uma para ser sua companhia de poltrona. E as estações chegam, passam, mais um pouco quem estava ao lado também passou, ou mudou de poltrona, de vagão, de interesse, de rota. Difícil esse Expresso, muito difícil.
Teve hora que o sol bateu de frente no seu lugar, e fazia bem. Teve hora que passou a incomodar, a ponto de você pedir pra mudar de lugar. Para logo depois, em meio a escuridão, você orar por uma luz naquele túnel que parece não ter fim, não ter fim, ô menina, não ter fim. E o Expresso continua a circular, percorrendo trilhos que você agora não identifica, ou reconhece, ou não quer conhecer, e tem hora que a única vontade é gritar: – Para o Expresso que eu quero descer!
E as estações chegam, passam, e o Expresso não para, não para não.
Viajar é bom. Pode ser muito bom. Pode ser incrivelmente bom. Mas pode ser um porre, terrivelmente difícil, aborrecido, triste. E o nosso Expresso passa em todas essas estações durante a viagem. Uma viagem que alguns acreditam não ter fim, outros só enxergam este nosso túnel como sendo todo o percursso, sem o antes, nem o depois. E pensando assim, melhor aproveitar, do jeito que for, na regra ou sem regra, no certo ou no errado, na lei ou no pecado. Afinal, a luz no fim do túnel pode nem ser luz.
E as estações chegam, passam, como o tempo, como a luz, ou a falta dela.
Estranho Expresso.
A gente embarca sem perceber, desembarca sem programar, sem saber de onde, para onde.
Confuso Expresso.
Que nos leva à busca de ser feliz, sem a gente saber o que é ser realmente feliz.
Misterioso Expresso.
Que circula por trilhas desconhecidas e nos faz acreditar que foi por vontade nossa, quando a verdade é que não temos a menor noção de qual é a verdade.
E mesmo assim, sem dar bola para a nossa vontade, as estações chegam e passam, passam e chegam, num caminho que parece não ter fim.
Mas um dia, essa trilha vai ter que chegar, com alguém a nos esperar, no final que é o nosso lugar, para então a felicidade tocar, na alegria que não tem fim, ô menina, que não tem fim.

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