MarioIgnacio1Depois da S.I.M., Síndrome da Insuficência Moral, é hora de falar um pouco sobre outra síndrome que afeta a humanidade de forma indiscriminada, a SELF, Síndrome do Eu Lindamente Fiz. Os mais jovens ainda não apresentam sintomas mais preocupantes desse mal, mas devem ficar atentos, a tendência é que se sofra cada vez mais cedo dada a velocidade das transformações que a nossa sociedade vive.
A SELF é mais comum nas pessoas de idade avançada, que ocuparam cargos de destaque, empresários, realizadores em todas as áreas, e que por uma questão natural, do cansaço das fibras que nem o Confort resolve, acabam por ficar ou se sentir marginalizados do centro de decisões no dia a dia.
Os sintomas são fáceis de serem percebidos, é só sentar na mesa do bar, no banco de trás do carro ou na sala de espera do SUS. E aí, basta uma breve pausa na conversa para que o indivíduo consiga uma brecha para introduzir lembranças de épocas remotas ou mesmo recentes. O processo físico é acompanhado por um aumento da frequência cardíaca e da frequência respiratória (hiperventilação), o que precipita a ativação dos neurônios remanescentes de início de carreira, saltos de cargos e seus efeitos colaterais como conquistas, ganhos financeiros, prêmios e demais realizações pessoais e profissionais.
Nessa hora, o Eu Fiz, Eu Fui, Eu Falei, Eu Mandei, Eu Mudei, se apodera do Alter Ego do indivíduo o que provoca um intensificação da capacidade de verbalização precipitativa, com ênfase na primeira pessoa do singular.
É importante observar que o processo da síndrome ocorre sem que o paciente tenha consciência disso, o que faz com que os presentes não tenham outra alternativa que não ouvir e procurar se interessar pelo monólogo saudosista.
A vida é mesmo um jogo cheio de pegadinhas, arapucas, ciclos, que foram criados pelo Programador com a intenção de testar a resistência, a paciência, a perseverança do participante. E uma das mais contundentes provas implantadas no avatar de cada jogador é o ato de envelhecer. Benjamin Button já tentou inverter o processo, mas a ideia do Criador é exatamente provocar este ocaso, e tal qual o criador da caixinha de Skinner, observar como os seus ratinhos de estimação reagem a essa falta de estímulo imutável.
Por melhor, mais íntegro, mais competente que tenha sido o individuo em suas atividades pessoais e profissionais, ele vai sofrer a ação do tempo, que degenera a sua capacidade de agir, pensar e se relacionar. E por maiores que tenham sidos os seus triunfos, eles ficarão no passado, e tudo o que você foi capaz de realizar poderá, no futuro, ganhar um comentário do tipo “ah, isso foi no seu tempo, há muito tempo, hoje não é mais assim”.
Saber administrar, conviver com essa verdade cruel, entender que faz parte do jogo, talvez seja o maior desafio que enfrentamos. O que nós fizemos, batalhamos, realizamos, não irá jamais perder o valor porque são conquistas, não necessariamente materiais, mas de superação, de entrega e conclusão. Só que não dá para viver delas, porque o jogo continua, novos desafios estão aí, mesmo que a nossa capacidade já se encontre contaminada. O Programador quis assim. E a nós só restar buscar seguir, e nos reinventar, recomeçar, jamais parar.
Por isso, se você tiver uma crise súbita de SELF, motivada por alguma necessidade de se valorizar no grupo, mostrar que já foi capaz e fez, respire fundo, pense que só deve satisfação a uma pessoa: você. Sua frequência cardíaca e respiratória irá se normalizar gradativamente e você vai conseguir controlar essa ansiedade de querer provar que continua sendo o que já foi, já fez, sabendo que isso ninguém apaga. Mesmo que interesse só a você.

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