Rosa 2Nasci em São Paulo há muito tempo atrás, melhor não falar em datas. Família de classe média, papai foi diplomata e eu, de certa forma, segui sua trilha, fui ser secretária na diplomacia e residi em Brasília logo que ela foi construida. Eram outros tempos, muito diferente dos de agora, sem tanta tecnologia, mais leves, menos afoitos, talvez mais verdadeiros.
Me formei em línguas, falava sete fluentes, até japonês eu arriscava um pouco.
Tive maridos, filhos, netos, posso dizer que vivi uma vida abençoada, mesmo agora com a sombra desse alemão que anda me intimidando, assombrando. Tem hora que esqueço de coisas importantes, como logo no começo que ele apareceu, nem sabia que estava por perto. Fui comprar pão e leite na padaria, aqui, na esquina do prédio, e quando sai, fiquei sem saber pra que lado era o meu apartamento. Ainda bem que a menina do balcão percebeu alguma coisa errada e me trouxe, eram alguns metros. Foi o meu primeiro alerta.
E de lá para cá tenho tido os meus vazios, dizem que só tende a piorar, por isso tomo alguns, muitos, comprimidos. Faz parte, minha mãe falava, “de um limão, faça uma limonada”, e estou tentando fazer, pelo menos enquanto lembrar a receita, rssss.
Por isso comecei a escrever, e a fazer alguns exercícios, não sei bem se funciona, mas… ando sabendo de tão pouca coisa atualmente.
Tem coisa que é chato, triste, outro dia custei a lembrar o nome do meu filho, por outro lado, a parte boa, não consigo mais lembrar o nome do meu primeiro marido, rssss. Que ele descanse em paz, ô estrupício, eu ainda continuo aqui, ele já foi, imagino até pra onde, rssss. Nada… deixa ele pra lá, o… o…, deixa o nome dele também pra lá.
O que eu estava falando mesmo?? Ah, deixa eu ler que eu lembro.
Pronto… lembrei, ou fui lembrada… tem coisa que faz mal pra gente, por exemplo, falava sete línguas, agora só falo essa, e olhe lá… quando eu lembro! rsss.
Tem hora que eu fico como uma pata choca, fora do ar, apesar de nunca ter visto uma pata choca para saber como ela fica… mas deve ser como eu fico. E aí, a gente pensa na vida que teve, da razão de tudo isso, da importância que cada coisa tem de verdade. Por exemplo, meu primeiro marido me traiu, o… o…, deixa ele, então, me traiu, não sei mais com quem, quando, então não foi importante.
Acho que o importante é ter sempre feito, agido da forma mais correta, verdadeira. Isso não é caso de lembrar ou não, você é, e os seus filhos aprenderam assim, e isso é o mais importante. Pelo jeito, a gente não leva mesmo nada dessa vida, nem as lembranças, mas se deixou exemplos… fez tudo valer a pena.
Por isso, eu queria aproveitar este momento de lucidez e reforçar a todos os meus queridos que eu os amo muito, sempre, e mesmo que venha a esquecer disso em algum momento, daqui para frente, vocês não podem esquercer, a não ser quando estiverem nesta situação que me encontro, rsss. Mas aí, não vai ser mais importante.
No fundo, o alemão tem um lado bom, todo mundo tem. É que o mundo hoje em dia está de um jeito, tanta falta de amor, de respeito, de humanidade. Tantas distorções de valores, tanta disputa, tanta voracidade em ter, muito pouco em ser. E aí, nessas horas, é melhor mesmo estar com o alemão, e não lembrar que o ser humano chegou a esse ponto, a esse estágio, depois de tanto tempo, tanta história, tanto sofrimento coletivo. Eu posso pensar assim e esquecer. Você não, você tem que tentar fazer alguma coisa, tentar mudar o que está ao seu alcanse. Para deixar marcado o seu exemplo e quando o alemão te pegar…, não vai mudar nada, a sua missão já vai ter sido cumprida.
E… O que eu estava falando mesmo??

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