image

Roberto levantou cedo, tomou banho, fez a barba, passou perfume, colocou uma roupa, pegou o jornal e foi tomar o café da manhã, sozinho. Não, Roberto não vai sair, nem para trabalhar, nem passear. Roberto vai ficar em casa, fuçando nos jornais, na internet, buscando, pesquisando, tentando encontrar um novo caminho, pessoal, profissional. Não são poucos os Robertos que estão por aí nessa mesma situação, buscando acertar uma tacada, fazer um negócio. Tem muita gente em busca de negócios, tudo parece ter virado em razão de fazer negócios, até casar.
Roberto folheava o jornal, que parecia ter notícias antigas já que tinha ido dormir depois de ficar até tarde na web, buscando, pesquisando. E o jornal trazia exatamente o que ele tinha lido durante a noite, madrugada. Enquanto virava as páginas, a frase que ouviu do sogro, ou ex-sogro, não saia de sua cabeça: “mas a minha filha vai sair dessa com uma mão na frente e outra atrás??”.
Não é de hoje que a união de duas pessoas pode ter motivos outros do que apenas compartilhar o mesmo chuveiro ou o código postal. Em várias culturas chega a ser natural juntar homem e mulher por interesses familiares, antigamente era até comum. O amor? Vem com o tempo, diziam.
O mundo acelerou, expandiu, encolheu, sobreviver ficou mais trabalhoso, as divisões de tarefas dentro da casa entre os casais se modificaram. Se antes, a mulher sair para trabalhar era uma opção, hoje é uma necessidade, o orçamento familiar pediu reforços, o que alterou as atenções, os focos, as relações.
O bem estar de duas pessoas, suas buscas individuais e conjuntas, a capacidade de atender às suas necessidades, desejos, ambições também sofreram transformações. E o que era antes uma comunhão de corações, hoje parece ter elementos que modificaram essa essência. Talvez por isso a preocupação do ex-sogro de Roberto sobre como ficaria o futuro material da filha. Se ela estava emocionalmente abalada, triste, passando por um momento difícil de ruptura dos votos realizados há poucos anos não era o mais importante. O foco estava no investimento feito, no seu patrimônio físico empenhado objetivando dividendos futuros, que mesmo em um mercado de risco, deveria propiciar retornos que pudessem multiplicar seus bens, que na assinatura do contrato era nenhum.
É, o casamento parece ter virado um negócio como outro qualquer. Para as marias chuteiras, um grande negócio. Para o sogro, ou ex-sogro, do Roberto, um péssimo negócio, afinal, sua filha vai sair com uma mão na frente e outra atrás sim, até porque, é o certo, justo, correto.
Enquanto folheava o jornal, Roberto não parava de sentir o vazio em seu peito, uma dor funda, sofrida, calada. Ele ainda a amava, sabia disso, mas não dependia apenas do seu amor. Ter alguém ao seu lado, nem à frente, nem atrás, é encarar a vida com reforço de alma, é dar e receber apoio quando a vontade faltar, é empurrar e ser empurrado quando a vontade é parar. Mas não dá para ter apenas porque o lugar ao seu lado está vago. É preciso comunhão, é preciso alquimia, é preciso sintonia, é preciso coração. Casamento não é uma união de ter, mas de ser. O ter pode estar agora e amanhã não mais estar. O ser sempre vai ser.
Roberto já lia o jornal sem ver, não estava ali, muito menos ela. E certamente o problema era esse. Mas o que mais estava pegando era ter percebido o foco na sociedade anônima, no “quanto eu ganho”, e o seu coração é daqueles bobos, antigos, que se alimenta do “quanto nós somos”. Depois que se constata quais são os reais interesses, fica difícil manter a sociedade, passa a virar um mau negócio.

Anúncios