ZéEduDrRuiDécada de 60. Não tinha internet, celular, rede social, a TV não era colorida, só cinco canais com muitos reclames, mas tinha bossa nova, Pelé e claro, políticos corruptos, talvez menos vorazes como os de hoje, talvez mais éticos na malandragem, certamente menos profissionais.
Uma época mais romântica, ingênua, e como sempre, repleta de causos que ficaram registrados na memória e nas lendas urbanas que habitam o imaginário coletivo, passadas por cronistas que aumentam, mas não inventam, ou não. Alguns viraram clássicos, como os de Vicente Matheus, folclórico presidente do Corinthians, que em uma coletiva de impressa afirmou categórico: o Sócrates é inegociável, invendável e imprestável.
Um importante político desta época, que foi prefeito e Governador de Estado, possui também frases e histórias clássicas. Era conhecido por instituir uma caixinha que servia como troco, de favores, além de bancar campanhas políticas e exílios em Paris, cidade onde veio a falecer. Foi com ele que surgiu a expressão “rouba, mas faz”, inspirando os ladrões atuais que deturparam um pouco essa filosofia empreendedora ao meterem a mão e não fazerem nada.
Adhemar fez, e não foi pouco. Iniciou, concluiu e duplicou as obras da Via Anchieta, Anhanguera, Dutra, Castelo Branco, afinal, “governar é abrir estradas”. É dele a construção do Hospital das Clínicas e foi quem levou a USP para o interior. A construção do Pacaembu, o autódromo de Interlagos, o túnel da 9 de Julho e do Anhangabaú, que virou o seu buraco. Criou o CEASA, a FEBEM, a CMTC, companhia de transportes, o MASP, fez de Campos do Jordão a cidade da cura, como centro nacional de tratamento da tuberculose, entre muitas outras realizações.
Adhemar era mesmo um político político, que se cercava de jovens técnicos especializados, costurava interesses, fazia alianças, tinha ao seu lado pessoas leais e dedicadas, como o Dr. Rui. Vira e mexe, a partir de um certo momento, o Dr. Rui estava sempre presente, ao telefone, no gabinete, nas viagens. O Dr. Rui era o seu confidente, aliado, companheiro de todas as horas, alegres e tristes, de tensão ou de prazer. Tanto que se dizia na época que o Dr. Rui influenciava Adhemar em diversas tomadas de decisões, até demitir secretários de Estado ele demitia, tal a sua força perante o governador.
Adhemar foi cassado mais de uma vez de suas funções administrativas, e se recuperava desses percalços injustos passando um tempo fora, como em Paris. E por algumas vezes, o Dr. Rui o acompanhou nessas marés de baixo astral, como testemunhou o jornalista Pacote. Reali Jr. relata que estava no gabinete de Adhemar, que falava ao telefone com o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, quando a outra linha tocou e a secretária interrompeu dizendo tratar-se do Dr. Rui. Ele imediatamente se despediu de Lacerda e atendeu ao Dr. Rui: “Alô, querido, estava falando agora mesmo com o seu governador”. O Dr. Rui era carioca.
Certa manhã, Adhemar voou para Campos de Jordão para inspecionar as obras do Palácio Boa Vista que estava para ser inaugurado. Visita do governador do estado era motivo de agito na cidade, por isso aquele movimento todo no campo de pouso.
Os primeiros a saírem da aeronave foram a barriga e o nariz protuberante que Adhemar trazia no rosto. Logo atrás, uma mulher de corpo esguio, elegante chapéu Chanel sobre a cabeça, tailleur preto de risca de giz, sapato tipo scarpin com salto agulha e um andar de fazer todos os presentes prenderem a respiração. Um amigo, com o olhar fixo nos quadris dela, perguntou para mim quem era.
– Aquela? De chapéu, tailleur de risca de giz, scarpin de salto agulha? É o Dr. Rui.

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