CampiChequeMateAlberto já não tinha ideia há quanto tempo estava no jogo, parecia ser desde quando tinha nascido. No início suas peças corriam soltas, ávidas, passando por cima dos peões sem perdão. Agora, a coisa parecia travada, arrastada, o jogo não mais rolava solto, o clima era mais tenso, agressivo, estava um ar de salve-se quem puder.
Parece que quanto mais se joga, menos se gosta, eliminar passa a ser a tônica, a motivação maior.
Se no xadrez você joga em busca do xeque, na vida o cheque é a razão de jogar, e quando ele não vem, só vai, a gente se sente em permanente xeque, pressionado, cobrado, estrangulado. O nó na garganta que vem do laço que a gente cria em volta do nosso próprio pescoço, dos desejos não atendidos, das buscas que dão em nada, do tempo que passa, dos amores que passam e não permanecem na cama, só na memória.
Cai uma torre, matam um cavalo, e o tabuleiro passa a ser um campo minado, cada passo é dado com o cuidado do medo, que não ajuda, só retarda, o medo de perder bloqueia o movimento da vitória. Medo, o aliado do adversário, que nos paralisa e faz o jogo da rainha, que induz o peão a perder pelo medo de perder.
Alberto seguia no jogo, sem nem saber por que ainda jogava, já tinha mais do que precisava, mas se portava cada vez mais voraz, cada vez mais cruel, feroz, desumano. O rei dos opressores, que sugava o sangue dos peões que encontrava pelo caminho tal qual um vampiro majestoso. Um vampiro astuto, matreiro, que quase não se movimenta, não se expõe, quem rodava por todo o planalto era a rainha com o seu poder de ir e vir sem contar os passos.
Passo. Palavra múltipla, versátil, no andar, nas etapas, no deixar de fazer.
A gente as vezes tem ele restrito, contado, passo a passo. O segredo é aprender caminhar respeitando as fases, os ciclos, sem a opção de não continuar, de passar a vez. Já a rainha corre, anda e pode passar a bola para alguém dar o xeque, ou o cheque, com ela por trás, garantindo o mate, ou morra.
Até que um dia, como tudo na vida, o jogo termina, mesmo você não querendo, pagando para não terminar. No fim, o jogo é que manda, o tabuleiro é emprestado, não é seu nem de ninguém. E o rei e a rainha passam, como a uva passa, como passam os peões, os cavalos, as torres. Como a vida passa.
E aí, o comprar passa a não ter valor, a pressão passa a não existir, só fica como registro a estratégia que você usou para tentar vencer um jogo que não se ganha ou se perde, sem vencedores ou vencidos.
No fim, o que importa é entender que os ciclos ensinam, uma vez rainha, outra vez peão, uma hora bispo, em outra cavalo, e como mexemos cada peça, como jogamos em cada passo, de cada jogo.
Neste balanço de performance, os cheques que demos e recebemos estão registrados, contabilizados em nosso patrimônio de vida que termina no xeque mate das nossas consciências.

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