CampiAnjoSeu rosto repousava docemente sobre duas almofadas, uma sob a outra. Nenhuma expressão, nada, ela não estava lá, apenas seu corpo, pés apoiados no puff tocavam de leve a caixa do DVD do filme que ela não via, por mais que o Bruce Willis se esforçasse em fazer justiça com as próprias mãos. Ela não estava nem aí.
A pele dourada pelo sol contrastava com o sofá e a bata branca, que não chegava a cobrir nem a cintura, coxas e calcinha do biquíni à mostra, era a visão do paraíso, de um anjo. Sim, um anjo inerte, mas cheio de vida, de uma beleza que exalava sensualidade nos seus contornos, no arrepio dos pelos eriçados pela brisa que invadia a sala pela porta de correr da varanda.
Um anjo sereno e perversamente erótico, um pecado delicioso.
Minha vontade era engoli-la com os braços, ter sua pele grudada na minha, mas a cena era tão mais excitante do que qualquer contato físico, que não fui capaz de me mover, assim como ela. Meu corpo pedia, mas meus olhos enviavam seguidas mensagens para o cérebro impedindo qualquer ação que modificasse a contemplação.
Não sei quanto tempo durou, aliás, ali aprendi o quanto o tempo não existe, como dizem alguns pensadores. Me perdi em olhar, admirar, e era apenas um corpo inerte. O ser que habitava nele devia estar numa excursão, livre das amarras, regras, imposições, devia estar plainando com a leveza e graça que sua embalagem demonstrava ali, preguiçosa. O anjo batia asas, enquanto o corpo repousava.
John McClane continuava em sua luta para salvar a esposa, feita refém no alto do prédio por aquele grupo de terroristas liderados pelo alemão Hans Gruber, mas ela não dava bola, nem eu mais. Meus olhos eram dela agora, só dela.
Quem primeiro se moveu foi seu pé, o direito, se esfregando sobre a perna, logo em seguida a mão esquerda, postada sob as duas almofadas, deu sinal de vida.
Foi quando um som prolongado se fez presente, no começo grave e afinando aos poucos. Olhei para a TV só para me certificar, Hans Gruber fazia sua última aparição despencando do prédio numa montagem, hoje, muito ruim. Não, não tinha vindo da TV.
Ela abriu primeiro um olho, me espreitando, seu ar de pura traquinagem foi revelador, o sorriso delicioso e sapeca surgiu a seguir e calou meus ouvidos, iluminou a sala, me levou às nuvens. O “pum” tinha sido dela, claro.
Observar é mesmo a base de todas as descobertas: anjo também faz dessas.

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