CampiCopo de CristalEm algum momento da sua vida você já deve ter umedecido a ponta do dedo e esfregado sobre a borda de um copo de cristal. O som que surge parece mágica e só acontece devido a presença de chumbo na composição desse tipo de vidro, que faz com que ele tenha mais brilho, transparência e prestígio, valor. Chumbo, um metal pesado, escuro e que transforma a aparência, a posição do copo na casa. Enquanto o de requeijão mora na cozinha, o que contém chumbo tem um aposento de honra na cristaleira.
Se você perguntar ao paladar qual copo ele prefere a resposta será imediata: o de cristal. Se perguntar ao dia-a-dia, disparado o de requeijão. E por isso, um entra no micro-ondas, congelador, lavanderia, jardim, encara líquido quente, gelado, congelado, fervendo, de refrigerante à simpatia com sal grosso atrás da porta. O outro repousa em berço esplêndido na vitrine mais ilustre, à espera do momento especial, da companhia mais nobre para ser degustado. Um é robusto, forte, pau pra toda obra, o outro é fino, sofisticado, frágil, célebre.
Se fossemos resumir a história de vida desses dois personagens, diferentes por uma porção de óxidos de chumbo, seria: um viveu, o outro a maior parte aguardou.
É verdade que o paladar muda de acordo com o tipo de copo que usamos. Beber um vinho em um copo de cristal é mesmo diferente, a transparência faz a sua visão perceber as tonalidades, o espaço interno faz com que ele se agite e libere o odor marcante. O pé longo não deixa que a sua mão modifique a temperatura, o que poderia alterar o seu sabor, e a espessura fina da taça faz com que o vinho deslize melhor e no contato com a boca dê ao seu paladar o prazer maior. Isso tudo é fato. Mas, porque não beber qualquer coisa nele, à toda hora?
A verdade é que muitas vezes a gente fica aguardando o momento melhor, o certo, especial, para usar uma roupa, beber na taça de cristal, fazer uma viagem, abordar alguém que despertou vontade de conhecer, conversar. Na maior parte das vezes, parece não ser o momento, e a razão cochicha no ouvido que, talvez, seja melhor esperar, aguardar uma oportunidade mais propícia.
E o tempo passa, a vida corre, e parece que o copo de cristal continua lá, protegido, à vista, lindo, mas sem uso corrente, esperando o momento especial. Parece pouco para quem tem tanto valor. E a gente passa, o copo fica, aguardando. Até que alguém o quebre. E quando isso acontecer, a história mais marcante que ele vai contar da sua existência será das poucas vezes que saiu para acompanhar um ótimo vinho. De resto, sobra a maravilhosa vista, do alto da cristaleira, atrás da porta de vidro que o protegia da vida.
Sozinho, mudo, aguardando, o copo de cristal não cumpre com a sua missão. Como a gente, ele precisa sair da redoma, da rotina, estar na vida, na lida, sem medo de se machucar. E ter alguém que o toque, com a ponta do dedo, e o faça vibrar a ponto de cantar, como o de requeijão jamais fará.
E assim viver, de verdade.

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