CampiVinteCentavosPobre mundo pobre. Difícil não ter a sensação de que já tivemos tempos melhores, mais verdadeiros, mais compromissados, mais solidários. Tempos com uma consciência mais coletiva do que individual, com atitudes mais nobres e menos focada em tirar o seu da reta.
A verdade é que neste mundinho de informação instantânea de hoje, tudo parece ser manobra de interesses dos canalhas que estão do outro lado, que não o seu. Resultado do aprendizado diário de que hoje em dia, ninguém faz nada sem ter um interesse por trás, o exercício coletivo é identificar quem está por trás do interesse da vez. E se for contrário ao seu, vale a voz da violência, não do argumento.
O fato é que se antes uma mentira precisava ser repetida muitas vezes para virar verdade, hoje basta postar essa mentira em algum lugar da rede social para ser compartilhada, já como verdade absoluta. Mentira para uns, verdade para outros, a diferença é de que lado da conversa você se posiciona.
E nesse jogo, cada vez mais rápido, cada vez mais sacana, agimos cada vez mais obedecendo nosso instinto de nos preservar, e preservar nossos interesses, sejam eles lícitos ou não, éticos ou não, justos ou não, oportunistas ou não.
E aí, quando vemos os confrontos violentos depositados na conta da ponta do iceberg dos vinte centavos de aumento da tarifa do transporte público, percebemos que esse movimento não pode ser medido por meros centavos.
Dois pontos básicos diferenciam os estudantes da década de 60, que saíram às ruas contra a ditadura da época, com os de hoje: o foco e as atitudes. Enquanto os de antigamente enfrentavam a repressão voltados primeiramente em se manifestar de forma pacífica, mesmo entrando em confronto, os de hoje parecem ter infiltrados integrantes de torcidas organizadas, que destroem bens públicos e privados enquanto “comemoram”. Como consequência, a mídia vai se referir aos manifestantes turcos como ativistas, e aos nossos como vândalos. Mesmo que tenha sido meia dúzia entre milhares, e que não seja possível controlar ações individuais em um tumulto coletivo.
Mas nada justifica a falta de preparo da polícia para administrar situações como essa. Credite alguns centavos pela falta de experiência, há tempos que não temos o povo na rua. Outros centavos ao medo de enfrentar multidões, mais um tanto pelo natural abuso de poder, e outros muitos centavos ao puxão de orelha da mídia que exigiu postura, e ao comando que orientou agredir antes de saber se haveria agressão. Sem distinção entre ativista, expectador ou imprensa.
Por trás desses vinte centavos estão frustrações pessoais, profissionais, financeiras, indignações com toda essa bandalheira que assola o país. Vinte centavos é apenas o troco por engolir sapos, elefantes todo santo dia. De ver a insegurança na espreita em cada esquina, de cada avenida, ruela, esteja na capital ou interior. De ver a péssima qualidade do ensino público, da saúde pública com pacientes largados à própria sorte em macas nos corredores dos hospitais. De ver a falta de oferta de transporte público, de infraestrutura nas cidades com famílias perdendo tudo em enchentes agendadas. De ver uma juventude massacrada pela pressão de se preparar com pós, MBA, doutorado para o emprego que parece não existir.
E aí ouvimos a presidente afirmar que “o Brasil tem praticamente pleno emprego”. O presidente do senado, réu condenado, dizer que “estamos fazendo contenção de despesas com absoluta transparência”, sobre os gastos com o lanche dos senadores e seus convidados que têm custo mensal previsto de R$ 31,2 mil, R$ 375 mil no ano. Vergonha!
Vinte centavos.
Nossos políticos juntos não valem vinte centavos. Perdemos vidas, amigos, sono, saúde, por vinte centavos. Os mesmos vinte centavos que, para quem ganha salário mínimo, representam três meses de trabalho com gastos em transporte nos grandes centros.
Vinte centavos. Um aumento que não veio menor antes porque 2012 teve eleição.
Vinte centavos. O custo para o povo novamente dar a cara para apanhar e mostrar que não é bobo, que essa safadeza toda, em todos os níveis, em todos os partidos, precisa ter um fim.
Vinte centavos. Aproveite a promoção, tá barato!

Anúncios