CampiRoupa no VaralAntigamente era comum, lá no fundo da casa, fios estendidos no quintal, as vezes apoiados em varetas de madeira, bambu, suportando as roupas levadas para tomar um sol e se livrar da água do enxague. Tudo feito a mão, no tanque, no muque.
E lá ficavam elas, à mostra, se exibindo, não tinham grife, nem passarela de ego para desfilar. Apenas ficavam ao sabor do vento, as vezes contra, outras a favor, não importava muito, a ideia era apenas balançar, fosse pro lado que fosse, e secar, as vezes quarar.
Tem hora que a gente deveria ser como roupa no varal, solta, leve, se mostrando como verdadeiramente somos, limpos na essência, sem necessidade de parecer ser, apenas ser. Ser o que a gente é, com nossos querer, nossas opções, desejos, expostos sem rótulos nem medos. Com os desgastes naturais das fibras, botões faltando, furinhos de uso, mas ainda aptos a cumprir com a proposta básica, embalar a vida.
Ao invés disso, caprichamos no verniz, na assinatura que etiqueta a origem, apostando que ela transfira para nós o prestígio que muitas vezes não temos por nós mesmos. E se a grama do vizinho é mais verde, o final de semana do amigo no Facebook é mais animado, todo felicidade, mesmo que a gente veja só os cinco minutos de fama, de risos, os outros tantos de choro deixaram de postar.
Numa época que roupa suja se lava nas redes sociais, ou que as roupas comuns ganham uma assinatura fake para mostrar o simulado prestígio imaginário, a verdade é que jogamos mais para a torcida do que para o nosso próprio time, pensando em nos moldar naquilo que achamos que os outros gostariam de ver, deixando nosso ser trancado no armário.
Roupa no varal tem cheiro de liberdade, de família, um bloco dos unidos da alegria, que está lá porque é lá que precisa estar naquele momento, dando um tempo para vestir seu avatar nos desafios que estão por vir. Que certamente terão momentos tensos, leves, gratificantes, frustrantes, prazerosos, angustiantes como qualquer celebridade que vive no país das maravilhas e da realidade.
E se a grama do vizinho é mais ou menos verde, não importa, ela pode ser artificial, sintética, ou natural e linda, mas é dele, melhor cuidar da nossa.
E se a festa na postagem do outro está animada, ótimo, bom que tenha gente feliz em nossa volta, é sinal que a vida segue com os seus ciclos.
A nós, cabe curtir cada momento, cada fase, cada ciclo, cada post comentado sorrindo, porque sorrir é a melhor forma de mostrar os dentes ao destino, já disse alguém mais sábio. E é a forma mais agradável de aguardar o tempo da roupa secar. Não para parecer ser feliz, mas por saber ser.
Mesmo que hoje em dia se tenha que dar esse tempo numa área de serviço apertada, pendurada meio amontoada, onde o sol não entra e o prazer de balançar seja restrito. A roupa tem que se adaptar às condições que são impostas pelo momento, a gente pode se sentir livre, solto como no varal de antigamente, deixando a vida nos levar. Sabendo que ela nos leva onde temos que estar.

Anúncios