CampiBatmanQuando eu era pequeno, as pessoas se comunicavam à distância por telefone, se estivessem em cidades diferentes dava para encomendar um interurbano, quanto mais longe, mais complicado ele era.
Os Correios viviam de enviar cartas, telegramas quando era muito urgente, que era usado também para dar parabéns pelo aniversário, casamento ou até pêsames.
Quando a gente viajava para fora do país ficava mais difícil, os interurbanos eram mais trabalhosos, não se escutava bem, demorava para fazer a ligação, então a gente mandava cartão postal, que muitas vezes chegava depois da gente chegar. Pelo menos servia como registro de que a gente tinha pensado na pessoa enquanto aproveitava o prazer de curtir as férias, o lugar novo, onde falavam uma língua que não era a nossa. Demorava até para saber quanto tinha sido o jogo de futebol, pelos jornais locais não dava, acho que eles não tinham espaço para falar de amenidades de um país sem muita importância, a gente era terceiro mundo, não lembro quem estava em segundo lugar.
Mas se existia essa dificuldade de interação, de informação, a nossa entrega na viagem era completa, total e absoluta, servia como um retiro, um recesso que fazia com que tudo ficasse lá atrás, problemas, pendências, a viagem era o foco.
Lembro do meu pai contando que na época dele de pequeno, o máximo da ficção científica era quando o Flash Gordon recebia uma mensagem mostrada numa tela, que muitos anos depois foi chamada de televisão. Um seriado, como o que vemos hoje, só que passado em capítulos no cinema, sempre aos domingos.
E o amanhã chegou, recheado de tecnologias mirabolantes, inimagináveis na época dele, como super-heróis que nos salvam de nós mesmo, sem a gente precisar, fazendo precisar e não mais viver sem.
Hoje alugamos os filmes pela Netflix, que matou a Blockbuster, que já foi sinônimo de filme que explodiu em bilheteria, e podemos assistir pelo tablet ou celular. Tecnologia, avanços, é muito bom viver todas essas mudanças que acontecem na velocidade da luz. E que acabam por participar da sua viagem, do seu recesso em algum lugar do planeta, que deixou de ser um retiro.
A gente vive um momento de acumular intensamente tudo e parece que quanto mais a gente acumula, mas essas coisas perdem o valor.
Estar em um quarto de hotel no interior da Flórida, com Wi-Fi, ou na sua casa não tem mais a menor diferença. Você conversa vendo a pessoa, enquanto acompanha seu time jogando, ao mesmo tempo que vê o prato que o seu filho pediu no restaurante em São Paulo, ou sabendo que a sua tia espirrou enquanto cozinhava na praia. É fascinante! Também brochante! Todos interligados, conectados e no fundo, sozinhos.
Muitas, centenas, milhares de trocas de informações, grande parte descartáveis, pessoas revelando mais do que gostaríamos de saber sobre suas vidas pessoais.
O mundo mudou e vai continuar mudando, cada vez mais rápido. A gente não muda nessa velocidade, talvez por isso é que certas mudanças incomodam mais do que fascinam. Viajar ficou diferente, não sei se para melhor. E não depende apenas da sua vontade desligar o Wi-Fi, a não ser que você viaje sozinho, mesmo assim, é como nicotina correndo no sangue, a necessidade de tragar é maior que as suas forças, naquela fração de segundos.
Assistir um comportamento padrão coletivo, onde quer que os seus olhos, ou suas lentes da câmera consigam atingir, com os olhos da maioria na tela e não no “ao vivo” incomoda e levanta a questão: o que é real e o que é virtual?
Os cientistas ainda discutem e buscam ser possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Não tenho a menor dúvida que sim, já é possível, da mesma forma que acredito que não vale a pena. Estar com um pé cá e um lá é chato, confunde a atenção, a entrega, mas parece não ter volta, agora é assim, e os incomodados que se retirem. Sozinhos.

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