CampiComeçarVocê já passou pela situação de ver tudo o que você construiu com alguma dificuldade, aos poucos, e que parecia sólido, verdadeiro, cair, desmoronar? Hoje em dia até que é normal, típico dessa nossa sociedade, que vira anônima da noite para o dia, seja ela comercial ou amorosa, no fim, tem sempre um fim.
E a gente perde o chão, perde o ar, perde o tempo do compasso, o passo, e tropeça, cai, sem vontade de levantar, ou acordar.
E mesmo que passe um tempo, nesta falta de ar, neste compasso sem passo, uma hora a gente levanta, sem aquela amarra, sem aquele freio, e tirando as forças sabe lá de onde, encara de frente o começar de novo que não é novo.
Sandra estava neste momento, de bater a poeira, varrer as perdas para debaixo do tapete e olhar para frente no esforço de acreditar que vai valer a pena ter amanhecido.
O mais difícil era conseguir estancar a hemorragia e impedir que o que ainda não veio fosse contaminado pelo veneno que a havia feito cair. O mais complicado era conseguir olhar para frente sem que aquela imagem gravada na retina borrasse sua visão com a névoa da mágoa. Era acreditar que o que vinha pudesse superar o que passou.
Após algumas experiências amorosas que terminaram quase que da mesma forma e sempre com o mesmo gosto amargo de cabo de guarda-chuva, um fim de empresa e de sociedade onde ela na verdade pagou para trabalhar, Sandra tentava ainda entender a razão de tudo estar acontecendo daquela forma. O que exatamente Deus queria dizer com aqueles sinais de ferro em brasa em sua pele, que tipo de erro repetitivo estava cometendo e que sua ignorância míope não a fazia enxergar.
Sabia que já tinha pisado na bola em alguns momentos, sabia que todos os seus mecanismos de defesas não encobriam sua parcela de culpa em parte do processo, mas tem uma hora que o jogo tem que virar, ou não dá para jogar mais.
Enquanto acendia um cigarro, ainda na cama, agora sozinha, tentava um apoio mental, ao mesmo tempo que seus olhos varriam o teto e a parede do quarto em busca daquele pernilongo sacana que a azucrinou a noite toda, juntamente com os seus pensamentos.
Num gesto automático, esticou o braço como se fosse tocar alguém que não mais estava lá, e ao perceber o ato falho, deixou pra lá o pernilongo e voltou a franzir a testa, engoliu em seco, o alerta de novo choro soou, mas sua determinação o estancou.
Precisava dar um basta, começar de novo e só podia contar com ela própria. Num repente, jogou o lençol para o lado e levantou como há muito tempo não fazia. Aquilo a fez sentir uma força que pensava ter perdido, jogada lá atrás. Gostou. Puxou o ar, um suspiro profundo, como quem se prepara para mergulhar e atravessar a piscina. Na verdade, naquele momento, precisava soltar água e, ainda com o cigarro na mão, entrou no banheiro.
Sandra se olhou no espelho, puxou a pálpebra com a ponta do dedo, balançou a cabeça como quem se rende às marcas que o tempo deixa e os cremes não conseguem disfarçar. Mais um detalhe que joga contra o começar de novo, mas que neste momento do jogo, que fosse às favas junto com o carcará sanguinolento, aquele estrupício que ainda a entristecia. Ao se dar conta do seu pensamento, um sorriso irônico e sarcástico se desenhou em seu rosto, algo borbulhou em seu íntimo, um arrepio eriçou sua pele, seu pensamento virou som de forma espontânea:
– É isso aí, que venha a vida. E carcará… vai a merda!!!

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