Campi LonaAperto. Quem nunca passou por um aperto? Aperto de dinheiro, aperto de horário, aperto no coração. E aperto para ir ao banheiro? Esse é dos piores, aquele tipo de aperto que dá vontade de sumir, que destrói, aniquila a autoestima, o Claudemir que o diga. Ele havia saído do flat para passar no banco, farmácia e comer qualquer porcaria. Talvez tenha sido esta última parada a responsável, apesar de ser difícil um efeito tão imediato.
A verdade é que o alerta soou ao comprar o jornal na banca. Claudemir recebeu o troco, parou, levantou a cabeça tentando sentir o teor da prioridade. Chegou a pensar que era apenas um ar pedindo liberdade, mas graças à sua experiência, 60 anos de estrada, não arriscou, o que mais tarde concluiria ter sido providencial. O problema é que esta checagem precipitou o sufoco que viria a seguir, definitivamente não era o serviço 1, era sem dúvida o 2, e com certa urgência urgentíssima.
Aperto. Quem nunca passou pelo desespero do cálculo: “quanto tempo me resta, será que dá?”.
Claudemir olhou em direção ao flat e fez as contas, três quadras. Consultou novamente a prioridade e a primeira gota de suor desceu de sua testa, rodeou sua grossa sobrancelha e escorreu pelo canto do olho direito, parecia lágrima de choro e não estava longe de ser.
Ao dar o primeiro passo, percebeu que qualquer movimento em falso, brusco, afobado, seria o fim, e trágico. A situação era mesmo crítica, pior do que imaginara ao receber o troco do senhor da banca. O pé precisava correr rente a calçada, a passos curtos e ligeiros, qualquer elevação poderia criar uma fresta entre as duas metades de seus fundilhos, uma fresta fatal.
Claudemir já sentia o suor escorrer feito cachoeira, de sua testa para o redor de ambos os olhos, unindo-se às lágrimas, agora reais.
Seu andar parecia o de uma gueixa, flutuando no chão, leve e ao mesmo tempo desesperado, mas eram apenas três quadras, três longínquas e intermináveis quadras. Sua concentração era total, absoluta, e foi quebrada pela buzina do carro, o semáforo havia fechado para pedestre ao final da primeira quadra. O susto quase o fez se borrar ali mesmo, em plena Rua Augusta, de Ronnie Cord. Mas Claudemir era forte, determinado. Respirou fundo, fechou os olhos enquanto travava os pés inclinando-os um pouco para dentro, tocando um no outro. Mais duas quadras, só duas.
Claudemir estava mentalizando seu quarto no flat, a porta do banheiro, era chegar lá e estaria salvo, foi quando o trânsito parou e ele atravessou na faixa, sempre com os mesmos passinhos curtos, rápidos, quase sem levantar os pés. E assim foi, concentrado, suando, mentalizando a porta do seu quarto, depois a porta do banheiro, e a segunda quadra foi vencida, mais um pouco a terceira.
Logo que passou pela porta de rodar do flat, sentiu suas forças minguarem, alguém o cumprimentou, mas seu foco agora era a porta do elevador, que estava aberta. Claro, aberta até estar próximo, lei de Murphy, na hora que chegou a porta fechou e o elevador subiu, não dava para arriscar esticar o pé, não dava.
Mais uma pequena eternidade de espera pelo próximo elevador, sentia sua musculatura falsear, o pânico parecia tomar conta do seu corpo, sua mente pedia de forma desesperada: “no elevador não, no elevador não!!!”.
Finalmente Claudemir se viu frente à porta do seu quarto, inseriu o cartão e ela se abriu. Mais dois passos, a visão da porta do seu banheiro se concretizou, e por uma fração de segundos ele relaxou. Foi seu único erro: – Meu Deus, que merda!!!

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