CampiBailarinaQuantas vezes você foi dormir pedindo para não acordar? Deve ser a forma mais cômoda que existe para quem não quer mais brincar sair do jogo.
E aí o dia vem, não importa o quanto escura a noite estava, e a tarefa de juntar os cacos, tentar que eles se encaixem novamente é nossa mesmo. Só a gente sabe os encaixes certos de cada pecinha desse quebra-cabeças que é a nossa vida.
E para montá-lo muitas vezes a gente tem que testar, ver se o encaixe é lá mesmo, ou se é apenas uma ilusão, apenas a nossa vontade de encontrar uma solução, qualquer solução. Mais na frente o erro de tapar o buraco de qualquer forma, com qualquer peça se mostra. Não tem jeito, para cada buraco nosso, dos mais íntimos aos mais banais, vai ser preciso a peça certa, nossa carência não sabe nada de montar quebra-cabeças.
Vai ter lugar que usamos cola demais, e dará para ver as cicatrizes das emendas, em outras ficaram frestas, até porque, é difícil deixar certinho como antes. E muitas vezes, você tem que desmontar tudo para tentar encaixar tudo, e nesse monta, desmonta, nessa precisão de se reinventar, o tempo passa, a paciência mingua, e a gente vai dormir torcendo para o dia não vir. Mas ele vem, tão certo quanto é o respirar para viver. E mesmo que a gente decida prender a respiração e parar com esse mótuo contínuo, uma programação que já vem com o equipamento, idealizada pelo Criador, vai fazer você abrir a boca de sopetão e aspirar todo o ar que deixou de ingerir, de uma só vez. É o nosso instinto natural de sobreviver antes de tudo. O problema é que a gente não busca apenas sobreviver, o que acaba acontecendo com muita gente, mas sim viver, viver plenamente, viver como merecemos ou temos direito ou achamos que temos.
Só que sem passar pela tarefa de montar o nosso quebra-cabeça, não vai rolar, no fundo, viver é o que acontece enquanto a gente monta. O duro é que tem vezes que nem temos ainda todas as peças, e nem sabemos se uma peça nova que surgiu do nada vai encaixar onde, com o quê.
Na verdade, contamos com ajuda durante o jogo, podemos até não enxergar, perceber alguns desses auxiliares, mas eles estão lá, ou cá, sempre prontos para nos intuir, nos soprar, claro, sem fazer por eles o que é nossa, apenas nossa tarefa. E quando escolhemos uma companhia, que adiciona o seu quebra-cabeça ao nosso, a tarefa passa a ser conjunta, o que nem sempre a dupla está preparada para levar adiante e concluir. Ainda mais nos dias de hoje, onde é maior a falta de paciência para avaliar, lutar para esgotar todas as possibilidades de encaixar juntos as peças certas. Mais fácil trocar, repor, descartar. E quando trombamos e sentimos nossas peças irem para o ar, bagunçadas e irremediavelmente perdidas, bloqueamos novas possíveis ajudas, nos fechamos e falamos que aposentamos. Mas novos quebra-cabeças surgem, novas peças são incorporadas ao da vida e continuarão a surgir até quando o ficar sem ar não depender mais da gente.
Por isso, mesmo que você viva como uma bailarina, na “ponta”, cheia de cuidados e receios, vestindo armaduras que protegem e ao mesmo tempo só a faz sobreviver, se permita, vez ou outra, dançar conforme a música, de sapatilha ou descalça e sorrir distraído. Quem decide se você vai voltar a brincar, neste jogo de quebra-cabeça, é aquela coisinha que bate por vontade própria do lado esquerdo do peito.
Não adianta quebrar a cabeça.

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