CampiCarnaval2013Yara olhava pela janela, a chuva caia, pingos batiam e se perdiam no vidro, como o seu olhar, que passivo, só assistia perdido no nada. Era o primeiro dia pós corte na empresa, não tinha nada para fazer a não ser esperar o ano começar depois de terminar o carnaval. Estava com planos de viajar, descansar, mas a notícia da demissão a pegou tão desprevenida que não sabia o que fazer, antes pensava em pular o carnaval, agora queria pular logo essa folia. Enquanto isso, quem pulava era o seu pensamento, de um ponto para outro, sem enredo nem harmonia, um desfile de reflexões soltas no ritmo surdo dos pingos que continuavam a bater na janela.
– A gente tem que marcar hora pra tudo, pra ir ao médico, no almoço com clientes, ao cinema, pra entregar os documentos do passaporte, falar com o advogado, mas não consegue marcar pra levar um pé na bunda do patrão, do marido, nem da morte. E não dá para marcar hora pra ficar alegre… carnaval é marcar hora pra pular que nem bobo… não consigo fazer isso… ainda mais agora…
Enquanto pensava, Yara desenhava com o dedo traços sem formas na janela embaçada, molhada pela chuva. Foi quando tocou o celular.
– Alô?
– Yara? Pode falar?
– Posso sim, Cadu, aliás, agora tenho todo tempo do mundo para falar.
– Ué, por que??
– Dancei na agência, mandaram cinco de uma vez, eu junto.
– Nossa, que chato!! Liguei para saber se você queria sair no Bloco dos Desacompanhados comigo, agora vou ver se tem um Bloco dos Desempregados, comigo, claro, sempre comigo, hehehe…
– Só você pra me fazer rir sem querer.
– Vamos lá, Yara, vira a página, se aconteceu foi pra abrir espaço pra rolar uma coisa melhor. Vai, veste a fantasia e vambora!!
– Fantasia? Que fantasia?
– “De rei ou de pirata ou de jardineira…”
– Hehe… Só você… Fantasia… hoje em dia nem fantasias têm mais, na avenida só tem gente sem roupa, acho que para refletir a nossa alma nua de sonhos, esperanças… Sei não…
– Larga mão, Yara, engana a desesperança, veste a fantasia, bora pra avenida! A vida segue, o desfile não para enquanto a bateria do seu coração continuar no ritmo, sem atravessar, só marcando os passos dessa caminhada que não tem hora pra acabar.
– Hummm… tá inspirado hoje, heim??
– Nada, eu sou um Pierrot apaixonado pela vida, vem ser a minha Colombina nesses quatro dias. Eu passo daí amanhã às…
– Nada disso!!! Sem hora marcada!!! Vem na hora que você quiser, e eu vou estar aqui, pronta pra embarcar nessa sua camuflagem da alegria. Engraçado, antes de você ligar eu estava exatamente pensando nessa coisa de ser pega desprevenida. Se a tristeza não marca hora, a alegria também não, então, deixa a vida me levar! Beijo. E obrigada. E traz a cerveja. E ótimo carnaval pra nós!! Ehhhh…

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