CampiVergonhaEm 1961, um ex-funcionário do Gran Circus Norte-Americano, Rio de Janeiro, quis se vingar do chefe após ter sido demitido. Adilson Alves tinha antecedentes criminais e problemas psicológicos. Junto com dois comparsas, usou gasolina para colocar fogo na lona que, feita de uma composição com parafina, se incendiou com rapidez e caiu em cima das quase três mil pessoas que assistiam ao espetáculo. No local, 503 pessoas morreram, 70% das vítimas eram crianças. Mais de mil pessoas ficaram feridas.
Podemos chamar isso de atentado, ato hediondo, uma monstruosidade feita por um pária cruel e desumano.
Um curto-circuito em um aparelho de ar-condicionado no 12º andar do Edifício Joelma, onde morreram 180 pessoas em 1974, pode ser chamado de erro técnico pela falta de vistoria ou até fatalidade, mas reacendeu o tema da segurança e preparo para prevenção e combate a incêndios.
O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, chocou o Brasil com suas 237 mortes, até o momento, a maioria por asfixiamento dentro da casa lotada acima do recomendado e com apenas uma saída.
Podemos chamar isso de retrato do Brasil.
Neste simples e terrível incidente, temos todas as categorias de infrações à dignidade, ética, bom senso, cumprimento à lei. Não foi uma bomba que explodiu no metrô, nem um idiota que chegou na escola e começou a atirar em quem estivesse na frente, ou um avião que entrou em uma zona de turbulência extrema e foi parar no chão.
O incêndio em Santa Maria foi um assassinato, como os que acontecem todos os dias neste país sem vergonha, quando um político ou assessor desvia verba pública e deixa milhares morrerem sem assistência na saúde, outro tanto sem futuro na educação, mais um tanto sem prevenção nas tragédias climáticas, que de tão repetitivas estão se tornando agendadas.
Na boate Kiss estão concentradas todas as artimanhas que nós brasileiros usamos com orgulho para dar um jeitinho na situação que não nos é favorável, e as consequências desses atos ficam nas mãos do destino, ou de Deus, este Ser que serve também como fonte de arrecadação descarada, livre de impostos, dos incautos que habitam essa terra abençoada por Ele. Dizem que Ele é brasileiro, mas parece que o que prolifera aqui são os discípulos do anjo que caiu e hoje riem da gente.
E na medida em que nós não nos mobilizamos de forma concreta, de forma física visível, com manifestações nas ruas, no Congresso, na sede do poder, nos tornamos cúmplices dessa bandalheira generalizada. Dessa corrupção desenfreada, que consegue todos os tipos de alvarás na clandestinidade e ainda os deixa caducar sem punição. Dessa ausência de vergonha no Senado que elege como mandatário mor um condenado pela justiça por corrupção ativa, que substitui outro velhaco. Dessa avalanche de omissões e falta de competências, as mais básicas, daqueles que nos representam e ocupam cargos públicos, e tem por obrigação trabalhar, orientar, fiscalizar, cobrar, punir.
O pior é que ainda somos capazes de nos organizar para defender partidos políticos, como se fossemos torcedores de times de futebol! Como se a bandeira de uma afinidade passada fosse suficiente para isentar de responsabilidades aqueles que são da “nossa turma”, com os brilhantes argumentos de que “antes também acontecia”, “isso não é novidade”, “se for pra pegar, pega todos”. Como se houvessem ratos ruins e os um pouco menos ruins não fossem ratos.
E para se safar, basta afirmar que “não sei de nada, não vi nada”.
Somos todos farinha do mesmo saco, todos cúmplices, ou pela afinidade, ou pela omissão de delatar, protestar, se indignar. Todos responsáveis e coautores na construção de um PAÍS SEM VERGONHA!

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