CampiMãosDurante a vida, fazemos, observamos, incorporamos diversos gestos, de acordo com o momento, a necessidade. Quando fechamos um negócio, apertar as mãos simbolizando um trato concretizado é icônico, gesto adotado há séculos. Na verdade, a origem pode ter milênios, quando os romanos se cumprimentavam e apertam os pulsos, pois assim, inspecionavam as mangas um do outro checando se não havia um punhal escondido.
Essa demonstração de intenção de paz acabou sendo incorporada e há quem consiga fazer uma leitura da pessoa de acordo com o tipo de aperto, mais forte, mais frouxo, com suor, que pode significar intimidação, insegurança, nervosismo ou qualquer outro tipo de captação de indícios ou energias.
No fundo, o toque de um ser em outro tem significados, intenções, como uma conversa silenciosa que diz muito sem falar nada.
Jony pensava nisso enquanto segurava a mão de Cris, no círculo que foi formado para a oração final da reunião. Separado a pouco tempo de sua esposa, sentiu imediatamente a diferença de tamanho, textura, consistência ao pegar na mão dela. E só aí se deu conta que há quase vinte anos não segurava na mão de nenhuma outra mulher a não ser na da sua, que não era mais sua.
Neste momento, percebeu a falta que faz entrelaçar os dedos com alguém que se ama, o tipo de mensagem implícita que circula em um simples gesto de dar as mãos. Sua vontade era de ficar segurando a mão de Cris por mais um tempo, mas a oração já estava por terminar e também não fazia sentido, ela era uma querida amiga apenas.
Ao final da reunião, Jony deu um carinhoso e prolongado abraço em Cris, ela não conseguiria ler as entrelinhas daquele gesto, mas foi a forma que ele encontrou para retribuir o “toque” que ela lhe deu enquanto oravam.
As vezes, a gente se cansa de tentar um novo recomeço, que pode incluir uma nova relação a dois. As vezes, parece um clichê, uma imposição social a necessidade de ter alguém ao seu lado para ser feliz. As vezes, as rasteiras que levamos nos fazem deixar de buscar uma nova oportunidade, nem sempre vale o “foi bom enquanto durou”, o último gosto é o que fica.
Dar as mãos é um gesto que carrega uma carga de energia poderosa, formalizada sem a necessidade de palavras, o contato da pele fala mais alto. Pode passar conforto, força, segurança ou apenas cumplicidade. Aprendemos isso desde pequenos, quando buscamos a mão do pai para atravessar a rua, nada de mal pode acontecer, ele sabe para onde e como levar, a gente apenas confia.
Entrelaçar os dedos com alguém que se gosta é um gesto simples, quase mecânico, nada sensual, mas que diz muito, mesmo sem a gente se dar conta. E faz falta, muita falta, quando não se tem mais. É sentir as energias, os corpos, os compromissos se unirem, misturarem, entrelaçados junto com os dedos num pacto mudo.
Jony voltou para casa calado, tinha recebido um toque, precisava pensar.

Anúncios