CampiGiseleQuem já atuou, de alguma forma, na área da publicidade, comunicação sabe que muitas vezes o que parece que é, não é bem assim.
Uma marca bem elaborada, embalagem bem cuidada, abordagens estudadas, pesquisadas, podem criar algo que não corresponde exatamente com a verdade do produto anunciado ou o serviço oferecido. Basta estar nas mãos de profissionais, e a maquiagem feita, a plástica planejada, ilude e pode enganar aqueles que são atraídos pela aparência, que não corresponde ao conteúdo. Claro que depois da primeira vez, segunda, essa fachada apenas não se sustenta.
Mas a verdade é que vivemos os tempos de aparentar mais do que ser, e a beleza é buscada de forma desenfreada e obsessiva, o que acaba por criar a ditadura da aparência. O que está dentro de padrão tem preferência, o que não está sofre as consequências de não agradar à primeira vista, e pode nem ganhar a oportunidade de ser aceito independente desse quesito.
Se comprar um produto pela embalagem passou a ser mais valorizado, praticar essa preferência, quando a mercadoria envolvida é um ser humano, passou a ser cruel.
A beleza já é cultuada, buscada, comprada desde que o mundo é mundo. A diferença é que agora, com os acessos às novas tecnologias, propagação da informação pela web, virou em muitos casos doença, em estágio extremo.
Nunca se gastou tanto em cosméticos, vestuário e plásticas, como se maquiar a ação do tempo ou tentar conquistar o corpo perfeito fosse prioritário em relação ao conteúdo, e como se fosse possível impedir o desgastes das fibras. Claro que não há nada de mal em cultuar a vaidade, mas o excesso, como em tudo, distorce e pune. Morrer em uma operação de lipoaspiração já não é mais novidade, desfigurar o rosto com botox ficou comum, queimar o corpo todo em bronzeamento artificial, perder a vida por anorexia ou sofrer de distúrbios psicológicos em razão dessa busca chega a ser corriqueiro.
E o pior: essa obsessão já está no foco dos adolescentes, cada vez mais precocemente.
Há alguns anos, dois personagens do cinema surgiram para dar um contraponto nessa excessiva valorização da embalagem: Shrek e Fiona. Ogros por fora, lindos por dentro, como muitos que nem temos a disposição ou iniciativa de conhecer.
Como eles, cada um de nós possui seus atributos, que encantam ou afastam, as vezes no externo, outras no interno. Ao assumirmos as nossas verdades, estabelecemos as diferenças que irão coexistir, sem julgamento de valor. E na medida em que aceitamos o que é verdadeiro em cada um de nós, ampliamos nossas consciências e as possibilidades dessa convivência.
Não por acaso a Fiona optou em assumir a condição de “ogra” como sua verdadeira identidade, por se sentir além da imagem externa, além das aparências.
É preciso coragem, convicção, força interior para ir contra essa ditadura da embalagem. É preciso personalidade para assumir uma posição própria, fora dos modismos e padrões uniformizados pela insensatez e os interesses sociais. É preciso se amar antes de mais nada.
É preciso enxergar além dos olhos para ver a essência, e é lá que mora a verdadeira beleza, não na embalagem.

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