Carlos, ou Carlão como os amigos o chamavam desde a infância devido ao seu porte maior que todos na época, fazia uma revisão mental das suas experiências amorosas. Uma a uma elas desfilavam na avenida da sua memória, sem batuque nem fantasia, já era quarta-feira. A razão era clara, e recente, mais uma tentativa que dava em nada, e o seu tamanho acabava por escamotear a realidade, Carlão não era força, era sensibilidade. Certamente seu lado esquerdo do peito tinha espaço para um grande coração, agora partido.
Tanta brincadeira para se fazer nesta vida e ela vem justamente brincar de me amar – pensava ele olhando pela janela do décimo primeiro andar, em seu apartamento. A tarde já era quase noite e sua falta de vontade deixara a luz por conta da tarde, que se despedia deixando a penumbra dominar o ambiente.
Mão direita sobre a boca, dedos esticados tocando o nariz, ele se esforçava tentando entender o por quê dessa necessidade de se viver em pares. E com tantas opções, a dificuldade de encontrar alguém que realmente dava sentido a esta convenção de formar um casal.
Tem vezes que eu me indisponho comigo, imagina juntar dois. Difícil, difícil… – sua mente ia e vinha, para o agora, para o antes, e o antes do antes, de volta para o quase agora.
Onde foi que a coisa desandou… com a primeira tudo bem, eu errei, só pensava no trabalho, em faturar… mas desta vez não, eu estava atento, não queria errar novamente, eu estava atento… E se não percebi, mesmo atento, então, o que foi verdade? Basta uma mentira para contaminar todas as verdades…
Foram 16 anos no segundo casamento, e parecia que iriam ser mais 50. Carlão acreditou mesmo que seria para a vida toda, e fazia para ser. Mas o que é para sempre? Agora, só as luzes dos carros e da rua iluminavam parte da sala.
E quando pensava na verdade de amar, lembrou de Wanda, a primeira paixão, aquela de criança, de olhar pela janela, ela em pé na calçada. Cabelos negros, boca de batom vermelho, decote generoso, seios fartos. Ele devia ter uns sete, oito anos, ela vinte, por aí. Toda noite, depois que sua mãe o colocava para dormir, ele dava um tempo e ia para a janela, mais um pouco, ela chegava, ou descia. É, ela fazia ponto na rua Aurora, Carlão morava em frente, e ela no segundo andar do prédio do outro lado da rua. Em uma das vezes em que saiu para a escola, a Caetano de Campos, dava para ir a pé, viu Wanda no bar comendo no balcão. Bem diferente dela a noite, quase não a reconheceu. Depois disso, foram poucas vezes, até que não mais a viu.
Os anos se passaram, Carlão cresceu, e não foi pouco, sempre no mesmo prédio, sempre lembrando de Wanda. Até que um dia a viu, novamente lá, de pé, cabelos negros, lábios vermelhos, intensos, decote generoso, seios fartos.
Carlão respirou fundo, aspirou coragem e desceu, precisava falar com ela, ouvir sua voz, sentir seu perfume. Antigamente, a primeira vez de um homem era geralmente com alguém como Wanda, e ele sonhava com esse dia.
Wanda… acho que eu te amava… e você a mim… pelo menos, eu sabia exatamente quem você era… É… você foi a primeira… podia ter sido pra sempre…

Anúncios