Já se passaram 50 anos, eu tinha sete quando soube da primeira missão dele, contra o Dr. No. Demorei para poder assistir suas ações ao vivo, mas três anos depois já tinha o carrinho que ejetava o banco e quando apertava o escapamento, subia a placa de proteção contra balas, era um Aston Martin DB5.
Ele é o meu personagem 001, cresci querendo ser Bond, James Bond. Pelo seu carisma, fascínio, requinte, bom humor, ironias, poder de sedução, cultura, inteligência e claro, por sempre se safar e nos salvar dos Blofeld, Goldfinger, Scaramanga, Le Chiffre  da vida. É verdade, confesso, se ele me pedisse em casamento, eu aceitava, mesmo correndo o risco de morrer metralhado na viagem de lua de mel, afinal, ele nasceu para ser nosso, jamais de uma só pessoa.
Se James é o homem da minha vida, é certo que não sei o que seria dele se o primeiro a encarná-lo não tivesse sido Sir Sean Connery, apesar da preferência do autor Ian Fleming, na época, pelo inglês David Niven, e dos produtores por Cary Grant. Connery tinha o que pareciam ser características comuns a eles como a elegância, charme, e era mais jovem, atlético, tinha ficado em terceiro lugar no Mister Universo, no fins dos anos 50.
É exatamente por conhecê-lo tão bem, estar há meio século preocupado com a sua saúde, com suas companhias, com suas missões, que ao vê-lo em ação em Skyfall, senti que as coisas mudam mesmo, até mesmo no meu agente preferido.
São muitos os filmes, após o fenômeno 007, que desenharam agentes, policiais, justiceiros, dignos das melhores produções de ação, aventura. O que não faz desses personagens um Bond, James Bond. Porque nosso agente a serviço de sua majestade é mais, muito mais do que alguém que contracena com mulheres bonitas, dá tiros, resolve suas tarefas e salva o mundo dos bandidos.
Ele conhece de vinhos, de diamantes, de física nuclear, de como passar com o carro só sobre duas rodas numa viela entre dois prédios. Ao mesmo tempo que seduz, ele dispara, com o coração partido, certeiro tiro entre os olhos da Electra. Tudo isso embalado por uma trilha sonora criada por John Barry no século passado e que vai fazer você ter vontade de pegar a sua Walther PPK e sair fazendo justiça assim que as cinco primeiras notas são tocadas, não importa que você esteja no ano de 2098.
O mundo gira, a Lusitana roda, as coisas mudam, os agentes secretos também. A ação de ontem não é mais como a de hoje, as novas plateias querem mais força física do que sedução, mais acrobacias do que raciocínios, mas não dá para permitir que o nosso James se transforme em um Jason Bourne ou Ethan Hunt, que são ótimos como missões impossíveis ou uma identidade perdida, mas não como personagem para durar a eternidade. E é essa a longevidade que quero para o meu Bond, saltando como um moleque de cima do penhasco, usando uma traquitana futurista desenvolvida pelo “Q”, caindo de um trem em movimento com um tiro no peito e não morrendo, mas sabendo qual foi a melhor safra de jerez e entregando um par de chinelinhos para a vilã sedutora nua se vestir.
Eu não digo nunca, jamais, porque a gente deve estar sempre preparado para entender e curtir o que vier pela frente, ou o que ficou para trás, como o título desta crônica, nome do último filme de Sir Sean, de peruca, como 007, uma lástima. Mas perdoável, afinal, ele é Bond, James Bond, o eterno.

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