É uma convenção, um comportamento coletivo que se estabelece e que todos acabam por seguir sem nem questionar ou se dar conta. Tem o dia de cada santo, e até o dia de todos os santos, e no dia seguinte é o dia de todos que já se foram. E por mais que você saiba que não existe um dia determinado para se lembrar de quem faz falta, quando esse dia do ano chega, você para e pensa nela, até mesmo como uma homenagem.
Foi o que fiz neste feriado, parei, pensei e senti, até uma vela acendi. Pensei em como era bonita, no pouco tempo em que passamos juntos, senti o vazio que sua partida deixou. Lembrei do seu olhar, de sua elegância ao falar, do seu sotaque carregado que trazia a força de sua existência rica em histórias, que eu ouvia pedindo para não parar.
Senti como a vida passa, e se a gente não corre para colher os frutos dos momentos, ela apenas passa, sem nada deixar. E mesmo que a gente pegue e guarde bem apertado em nossa linha do tempo, a sensação é de que a gente devia ter colhido mais, aproveitado mais os segundos que deixamos passar pela atenção em outro lugar.
Difícil estar atento a tudo, o tempo todo, difícil saber o que vai fazer falta lá na frente quando a gente pensa que vai ter pra todo o sempre. Difícil perceber o valor do que tinha enquanto tinha.
E depois que passa, passou, e a gente encontra nos vazios os buracos da presença que já nos preencheu e que faz essa falta doer calada.
Nunca voltei ao lugar onde o seu corpo repousa, ela não está lá, nem mesmo o corpo. Prefiro trazer comigo a lembrança do seu olhar, do seu sorriso, da sua voz carregada de sotaque, não é lá que ela mora, ela mora no meu coração. E quando entro nessa trilha da memória, começo a seguir cada passo que me leva aos outros personagens de minha história, que neste dia desfilam sua falta em mim.
Quando somos jovem, não pensamos no fim da trilha, está fora da visão, e quem faz parte da caminhada está ao nosso lado, mesmo que alguns a passos mais lentos. Mas o tempo passa, e a trilha dos que já foram cresce, assim como os vazios, até que a gente passa a sentir que está mais lá do que cá, e caminhar exige um esforço maior do que antes.
Interessante como um dia criado para cultuar quem já foi, acaba por cumprir com a sua proposta, e nos faz embarcar nessa viagem ao passado. Uns mais, outros menos, mas todos, em alguma hora do dia, se pegam lembrando de um momento, revendo uma foto, e do jeito que for acabam por reverenciar alguém que passou e marcou. É a tal da saudade gostosa de ter.
Já disseram que não se vive do passado, até porque, já passou, não volta mais. Mas saudade é diferente, não é cultivar tristeza nem sofrimento, é lembrar com alegria momentos especiais. E se vem junto uma ponta de dor, faz parte, afinal, “quem passou pela vida e não sofreu, foi espectro de homem, não foi homem, só passou pela vida, não viveu”.
Um beijo em todos, uma hora a gente se vê novamente.

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