A arte fala sem precisar dizer letra após letra, basta uma mancha, um traço, as vezes apenas a menção de uma expressão em um borrão, e a gente passa um tempo, horas nessa conversa muda, absorvendo a mensagem. Ela penetra em nós por outros canais, que nada tem a ver com a audição, e nos marca de forma profunda, impregnando a alma de sentimento.
Assim era a visão do quadro de lady Mary que pendia na parede desgastada pedindo pintura. Interessante, certas coisas tem mais ou menos importância dependendo da companhia em volta. Aquela tela poderia estar num museu, numa galeria, e seria reverenciada como obra prima. Na parede onde estava, poderia ser apenas algo pendurado por um prego enferrujado, mas certamente não aquele rosto de lady Mary, ele gritava importância, puro mérito do artista.
O corredor onde o quadro estava exposto era pouco iluminado, apenas pela janela que ficava em seu extremo, a maioria passava, não via, nem imaginava ou sabia de quem era o rosto na moldura.
Joca, zelador da repartição desde quando ela fora inaugurada há quase cinco décadas, sabia e bem. Ele trabalhava na casa, antes de virar instituto, e recebia ordens diretamente de lady Mary quando era o responsável pelo jardim. Talvez por este motivo, toda vez que andava pelo corredor e passava pelo quadro, fazia uma reverência, em sinal de apreço e respeito. Era de forma discreta, contida, mas perceptível para quem estava atento, o que nunca acontecia.
Na vida, não são poucas as vezes em que frequentamos um lugar, interagimos com pessoas, objetos, dos quais não temos a menor noção de sua história, e mais na frente, esses locais, ou essas pessoas, ou esses objetos passam a fazer parte decisiva, marcante da nossa história. São os giros da vida que se mesclam em nosso caminho compondo o cenário, elenco, objetos de cena da nossa peça.
Lady Mary certamente não fazia parte da história daquelas pessoas que agora transitavam diariamente em sua casa. Só um elo havia restado, um único personagem, que toda vez que passava pelo quadro, mostrava sua veneração.
Era essa indelével estima que fazia Joca andar todos os dias pelo corredor, as vezes mais de uma vez. Uma afeição calada, como foi por todo esse tempo, profunda e apaixonada, mas sempre reprimida, afinal, ela era a senhora da casa, do prefeito, adorada por toda a comunidade pelo seu carinho e atenção com os mais necessitados. E por não ter do marido o reconhecimento que merecia, uma sutil tristeza em seu íntimo a acompanhou até sua viagem de volta.
Joca assistiu esse processo de perto, em silêncio, sem iniciativa, e ao mesmo tempo, sem saída. Sua única alternativa foi eternizar aquele olhar, aquele sentimento em manchas, traços e borrões, colocar na passagem onde todos pudessem admirar o encanto daquela mulher rara, linda e guerreira, doce e determinada, paixão única de sua vida.
Um quadro desenhado com as pinceladas do amor eterno que ficará para sempre à vista dos que conversam silenciosamente com a arte.

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