Já está até desgastada aquela velha frase de que o tempo é o senhor da razão. Ele esclarece, acalma, suaviza, faz tudo passar, até a vida, e a gente, pois estamos mais dentro dele, do que ele na gente. E quando olhamos para trás, vemos como muita coisa mudou, mas não pela ação do tempo, e sim pelas nossas ações e falta delas.
Deixar nas costas do tempo todas essas transformações é bem típico de um ser que mais aponta do que se vê, que mais culpa do que se avalia, que mais se esconde do que se assume.
Eu sou do tempo que ouvia meu avô falar do valor do fio do bigode, o compromisso era maior do que o interesse mutável. Do tempo que os filhos pediam a benção para os pais, do tempo que a professora tinha autoridade inquestionável.
Sou do tempo que mentir era feio, fazia crescer o nariz. Sou do tempo que se tentava superar os obstáculos, não se desistia por nada, na primeira dificuldade.
Sou do tempo que se sentava na mesa para compartilhar, olhando nos olhos, sem nada nas mãos para nos desviar a atenção, a não ser os talheres.
Sou do tempo que o tempo se dava a gastar, se tinha tempo de sobra.
O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus nem existe mais, quase nem se fala mais de poupança, mas o tempo continua voando, levando, limpando, marcando, roubando.
Nessa época de tempos difíceis, de tempos em falta, de tempos corridos, quem continua a perder com o tempo somos nós. Temos perdido a vergonha na cara, temos perdido a convivência presente substituindo pela virtual, temos perdido a batalha contra o desamor, falsidade, os trapaceiros.
O tempo passa, o tempo voa e os escândalos se proliferam como ervas daninhas à nossa humanidade. Como se cada um estivesse correndo contra o tempo para aproveitar e se dar bem, a qualquer custo, com que arma for. E é o tempo que tem culpa dessa corrida? É o senhor da razão que provoca essa irracionalidade?
O tempo passa, o tempo voa e as mudanças continuam as mesmas, provocadas pelos mesmos agentes, que se preocupam com o tempo apenas em não perder tempo.
E quando chega o tempo de eleições políticas, toda essa verdade sobe à superfície, como esgoto a céu aberto, como máscaras que despencam, sem pudor, sem amor, com toda dor.
É nesse tempo que a necessidade de iludir, de falsificar, de enganar se profissionaliza, se reveste do verniz que serve de maquiagem para os caras de pau. Nesse tempo, o circo é armado, e as pessoas vestem seus narizes vermelhos, doados por aqueles que fazem com seus discursos a gente atuar e pular como marionetes no meio do picadeiro.
O que o senhor da razão tem com isso? Nada. Ele só vai fazer passar, levar para trás esse momento da gente. Para trás do agora, para frente do tempo que o fio do bigode valia algo. Se mudanças aconteceram, não foi pela ação do senhor tempo, a culpa não é dele, que pode nem existir, mas da gente, que sempre encontra alguém para levar a culpa dos nossos crimes. Tá na hora de dar um tempo.

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