Houve um tempo que cego era apenas aquele que não enxergava por deficiência visual. E bastava um olho bom para virar soberano em um reino sem visão. Hoje, são muitos os que olham e não veem, focam com a mente, e esquecem de usar os olhos do coração.
Nosso olhar ficou mais esperto, mais alerta, e empobreceu. Por necessidade, pela falta de tempo, de afeto, pela falta de coragem de olhar nos olhos, melhor desviar para não encarar. E aí, o que fazemos é concentrar nossos olhos no umbigo, olhamos apenas para nós mesmos, para o que queremos, para o que sentimos, para o que nos importa, para o resto, fechamos os olhos.
E se não conseguimos usar de forma plena os dois olhos, ítens de série que viemos equipados, como abrir o terceiro, opcional premium em um modelo que parece que estamos distante de possuir?
Nessas horas, a gente percebe o quanto temos de identidade com o coco. Isso, o fruto, claro que a versão da palavra com acento no “o” final também possui muitas afinidades com a gente, mas me refiro à fruta, que armazena água no seu interior, além de uma polpa rica em nutrientes.
Na Índia, o coco possui um interessante simbolismo e é usado em alguns rituais. Como o ser humano, para se chegar na parte aproveitável do fruto, é preciso tirar a casca, cheia de tramas e fibras. Aí, você se depara com um caroço, duro, áspero, e pode ver claramente as marcas dos três poros de germinação que é por onde sua pequena raiz emerge quando o embrião germina. Dos três, dois “olhos” são cegos, só o terceiro se comunica com o interior, de forma profunda e capaz de chegar no que o coco tem de melhor, a água e a polpa. Que coincidência! E elas não param por aí.
Como o ser humano, o coqueiro é considerado uma praga em seu habitat natural, se reproduz sozinho e de forma extensiva, com os seus dois “olhos cegos” e o terceiro que é o que realmente vale.
O nosso terceiro olho também é o que vale, aquele que nos conecta com o nosso interior maior, o espiritual, que concentra a nossa polpa, a nossa essência. Mas enquanto não tirarmos o olhar do nosso lindo, deslumbrante e cego umbigo, não estaremos aptos a usar esse opcional de fábrica, nossa terceira visão.
Enquanto isso, continuamos vendo sem reparar, olhando sem enxergar, vivendo sem cooperar, em uma grande, enorme terra de cegos, onde os espertos viram rei sem olho nenhum, a não ser o do nó cego, que bloqueia, interrompe o fluxo da verdadeira vida. Vida, essa coisinha que deveria correr tão natural, leve, e que a cada dia se torna mais pesada e solitária para muitos.
Enquanto isso, quem enxerga tudo isso fecha os olhos cansados de olhar além e não ver saída.
Talvez o exercício seja esse mesmo, manter nossas vistas abertas apesar de cansadas, alertar os que pensam em desistir, em se manter alertas, não se abater com a escuridão pela certeza de que a luz sempre se faz presente.
Há de chegar o dia em que não haverá mais rei de um olho só.
Enquanto isso, ficamos de olho!

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