Época de eleição, todo mundo trabalhando na política naquela pequena cidade do interior, bem pequena. O prefeito já estava no seu segundo mandato, não poderia se reeleger, e já tinha sido por duas vezes vice do médico da cidade, que não queria sair novamente para prefeito. Era hora de mudanças, de renovar.
Como todos sabem, essa é a época em que os urubus sobrevoam de olho na carniça, faz parte da natureza humana, assim como faz parte da natureza divina as primaveras florescerem neste período do ano. A diferença é que os urubus só aparecem de quatro em quatro anos. E não importa que a cidade mudou da água para o vinho nos últimos 16 anos, virou modelo de administração na saúde, educação e habitação para todo estado e país. Essas aves de rapina estão sempre na espreita de levar vantagem pessoal, desmerecer, desconstruir, montar um caos verbal mentiroso, para levarem os menos informados a agirem da forma como eles planejam.
Fazer política virou um jogo puramente de interesses, um vale tudo sem ética, sem caráter, sem vergonha. O candidato que busca derrubar essa administração honesta, responsável, sem cambalachos e privilégios para os amigos, usava a tática dos velhos coronéis comprando votos. Ou pelo menos o Túlio acha que conseguiu comprar, na medida em que o jogo só acaba quando termina, nada garante que os votos vendidos estarão lá vergonhosamente trocados no final da apuração.
O cargo da secretaria de esportes já tinha sido prometido para três bobinhos, aliás, emprego na prefeitura era distribuído a rodo, até terreno que seria doado pelo município o safado já havia garantido para a construção de uma “fábrica” de confecção. Isso sem contar que ia ter casa pra todo mundo, o frigorífico seria reaberto, saneamento básico bancado pela prefeitura no loteamento irregular cuja posse da terra está em litígio de herança. Vale tudo nessa política que não vale nada.
O Tulião era raposa velha mesmo, na verdade, galo caipira matreiro enquanto o candidato da situação era frango de granja, acostumado com ração balanceada, bonzinho, não tinha a rodagem do outro. E na rinha da política não adianta ser bom, ganha o mardoso. O Tuca parecia não ter a menor chance.
Na medida em que se aproximava o dia de apertar o botão “confirma” o clima na cidade fervia, só se falava nisso, que bicho vai dar, Tulião raposa véia ou Tuca frango de granja? As promessas de cargo continuavam assim como a descontrução da atual administração, o Silvio Santos caipira jogava mais e mais aviãozinhos no seu “Quem quer dinheiro??” da roça. E o povo bobo, interesseiro, oportunista, parecia embarcar.
Até que o domingo chegou. Tulião já se apresentava como prefeito e marcava cafezinhos para mostrar o seu novo gabinete. A vitória era certa, segundo eles, com 2 mil votos de frente. Se fosse verdade, os moradores da cidade mereciam voltar para a era dos conchavos e desvios de verba.
As urnas começaram a ser abertas, rojões eram ouvidos pelos quatro cantos da cidade, os aliados do raposão riam e gozavam todos que passavam, os velhos tempos estavam por voltar.
Quando o último voto foi computado, um breve silêncio imperava, este voto definia toda eleição. E os aliados do frango romperam em comemoração, a raposa perdeu. Perdeu? Um voto de diferença?
Muitas vezes a democracia tem um preço alto, a vontade da maioria pode ser perigosa se a maioria for aquela de desinformados, ou dos que estão mais preocupados com o próprio umbigo e não com o que é bom para a comunidade.
Política não é como jogo de futebol, onde o importante é ganhar, seja como for, roubado ou não. Política influi na nossa vida, as escolhas refletem na nossa cidade, no nosso país. O safado eleito passa a ser um safado dentro da sua casa, e não um jogador que você encontra pela TV no final de semana.
É de preocupar que bicho a maioria vai colocar na minha casa em outubro.

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