Ari era uma pessoa como outra qualquer, dois braços, duas pernas, um tronco, cabeça, a maioria é assim. Não, Ari não era uma pessoa como outra qualquer, Ari tinha a mania de colecionar, qualquer coisa. Sua desculpa era que esses registros, objetos, acabam por formar sua linha de vida, sua história pessoal, os lugares que já frequentou, as coisas que já teve nas mãos, tudo aquilo que já fez parte de algum momento da sua passagem, por aqui.
A primeira coisa que lembra ter virado coleção foi a palavra “FIM” que pontuava o final das revistas em quadrinhos, quando tinha cinco ou seis anos. Não, não é brincadeira, talvez serão poucos os que já pararam para se ater a esse elemento gráfico, os mais novos nem devem saber que isso existe ou já existiu. Explicando. Nas revistas de história em quadrinhos da década de cinquenta, a maior parte em preto e branco, o último quadrinho vinha com um box, a palavra “FIM” dentro de um retângulo. Provavelmente em razão de boa parte das histórias na época serem traduzidas do inglês com o seu tradicional “The End”. E o que diferenciava um “FIM” do outro era a tipologia e talvez algum arabesco no box. Enfim, Ari começou colecionando “FIM”. E desde esse dia, suas coleções não tiveram mais fim.
Dedais, rolhas, fósforos, guardanapos de papel, copos descartáveis de fast foods, corujas, borboletas, álbuns de figurinhas, maços de cigarros, revistas em quadrinhos, vale qualquer coisa para quem se acha um guardião da memória.
Quem olha de fora, entende por juntar tranqueiras e talvez não se dê conta que todos nós vivemos juntando tranqueiras, de todos os tipos.
A diferença está em um detalhe fundamental, o prazer.
O Ari, quando viaja, passeia, tem seu radar sempre ligado, são muitas as opções de acrescentar uma nova aquisição em suas coleções, e quando isso acontece, a felicidade pela nova descoberta se processa lá de dentro do seu ser, algo que não se mede, avalia, pega, apenas surge, de dentro para fora. Um sentimento que não serve para parecer melhor, mais bonito, mais importante, mais bem sucedido que ninguém, ele simplesmente preenche o seu ser com uma energia que não tem preço, nem dá para comprar em um shopping. Felicidade é isso. Pura, ingênua, simples assim. Assim é um colecionador de “tranqueiras”, ele coleciona alegrias.
A gente passa pela vida colecionando muitas coisas, e muitas vezes, nem se dá conta. Quando a coleção é de vitórias, sucessos, todo mundo fica sabendo. Mas não são poucas as vezes que incluímos nas nossas coleções magoas, raiva, inveja, e nem sempre nos damos conta que carregamos essas verdadeiras tranqueiras por toda existência. Sem contar as coleções de decepções, as amorosas, no trabalho, junto aos amigos. Eram essas últimas que estavam se acumulando junto ao Ari de forma perigosa, e talvez por isso ele se dedicasse mais ainda nas que eram prazerosas.
Um dia, em uma dessas rodas de amigos, a mania do Ari em colecionar coisas surgiu novamente como tema de conversa e de gozações. Um dos presentes, o mais enfático, destilava ironias sobre a esquisitice de colecionar bobagens. Foi quando o alarme do seu celular tocou e ele abriu uma caixinha lotada de comprimidos, e como bom hipocondríaco, engoliu todas elas. Algumas com receitas, outras sem, a verdade é que ele também era um colecionador, de caixinhas de remédios. Essa coleção, o Ari não tinha.

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