Algumas épocas do ano nos fazem retomar, mesmo que por um breve momento, sentimentos mais puros, ingênuos, simples, de amor, solidariedade, que se estende além de aos mais próximos. É quando nos sentimos mais humanos, menos alertas ao toma lá, dá cá, aos interesses que se tornaram o combustível que move as ações de cada um na luta nossa de cada dia.
De quatro em quatro anos, esse sentimento aflora de forma mágica, rompe fronteiras, conecta seres em cada canto do planeta, formando uma rede sem pátria, sem conflitos. Como se o mundo agendasse um encontro de paz para todos se reunirem, se divertirem, competirem de forma lúdica, guerreira, mas leal. Os vencedores não fazem vítimas, se tornam heróis, e ganham a admiração, mesmo quando perdem, porque o que importa é estar lá e tentar, ganhar é apenas um fecho, que vale ouro, que não se vende, só se comemora. E comemorar é estar feliz.
Como é bom ver o mundo, pelo menos num breve, brevíssimo momento, se reunir absolutamente em paz, sem políticos nem política. Sem arranjos nem mutretas, sem medos nem balas perdidas.
Tudo bem, dizer que não tem políticos, arranjos, mutretas, é muita ingenuidade. Há quase 80 anos, teve um ninguém que tentou fazer desse palco um lugar de demonstração da pretensa superioridade ariana, mas os Deuses do Olimpo estavam atentos, todos os doze. Outras tentativas foram feitas, claro, desde sempre, mas o resultado é maior que as más intenções, o efeito se sobrepõe aos bastidores.
Assistir o esforço de um desconhecido, de um país qualquer, e essa energia ser capaz de emocionar e nos fazer vibrar e torcer, está acima dos interesses mundanos. Conseguir tocar os nossos corações, já calejados dos ganha e perde da vida, é a maior vitória desse evento. Ser impregnado pelo choro de um rosto recém conhecido e perceber nossas lágrimas escorrerem junto com as dele, é nos presentear com a lembrança de que somos mesmo uma só tribo, uma grande e extensa tribo que atende pelo nome de humanos.
Tudo bem, são muitos os que demonstram não merecer participar dessa mesmo tribo, mas olhando esse encontro, a sensação é que os que merecem são em número muito maior. E aí, a gente começa a se convencer que ainda tem jeito, que nem tudo está perdido, que os Deuses do Olimpo estão por aí, atentos, comemorando.
Isso certamente não muda a nossa realidade, não resolve o problema de ninguém, não ameniza dores, perdas, frustrações, nem paga conta, mas dá alento. E basta isso, basta sentir essa vontade de abraçar alguém que conseguiu superar um limite, que nos foi apresentado hoje. Basta perceber que de olhos puxados, cabelos encaracolados, lisos, de pele clara ou parda, a reação é a mesma, a essência é a mesma, mesmo que não dê para entender o que sai pela boca. A emoção não escolhe o tipo de sangue para nos cutucar, ela não tem pátria, bandeira, rótulo.
E se um apresentador de TV, em meio a toda essa energia positiva, assistindo ao vivo uma abertura de Jogos digna dos Deuses, vem discutir no ar que o pulo de paraquedas da Rainha foi forçar a barra ou que o James Bond certo a saltar deveria ser o Sean Conery, só resta reunir toda tribo, nos quatro cantos do planeta, e juntos, com os doze Deuses do Olimpo, gritar a uma só voz: CALA A BOCA GALVÃO!!

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