Livro Ladeira Da Memoria SeverinaSeverina nasceu na lida, da terra seca e sol escaldante, onde fartura só tinha de dificuldade, e se pra um era prova de fogo, pra dois era incêndio total.
Quando a surpresa chegou, por descuido de uma noite de amor, em meio a tanto choro, tanto rolo, Severina logo decidiu que seguiria como um em prova de fogo, ele que se virasse como ela, por conta própria.
Na hora de deixar a criança na porta do dono da venda, sua consciência não palpitou, nem ela olhou pra trás, saiu tal qual gato furtivo no meio da noite, ainda cambaleante depois do parto rasteiro. O choro da criança despertou a vizinhança, as luzes pipocaram nas janelas enquanto Severina se esgueirava pelas ruelas.
O tempo passou, mas nem tudo ele apaga, a terra continuava seca, o sol permanecia em brasa, e Severina agora velha senhora, de tanto chorar pelos cantos, dessa vida dura e malvada, fez do choro seu ganha pão, chorar para ela virou nada.
Onde velassem um morto, velho, criança ou moça encalhada, lá estava ela, de choro fácil e abundante a ganhar seu dinheiro por um tanto de lágrimas forjadas.
Com o tempo, Severina tornou-se a carpideira mais requisitada da cidade, sua atuação cativava pela dedicação e entrega ao defunto, o que levava os presentes às lágrimas.
Enquanto ela finalmente se encontrava no trabalho, lá na venda, o único filho do dono, encontrado em uma noite fria e escura de outono, se desdobrava atrás do balcão para atender os clientes com esmero e atenção, orgulho do pai de adoção. Todo mês, sempre no dia que encontrou o garoto, seu Pondé acendia uma vela agradecendo a Deus o presente que recebeu.
– A vida é mesmo uma maravilha – pensava ele – nos surpreende em cada esquina. em cada volta.
E nossa história foi seguindo em frente, o dono da venda agradecendo à vida, Severina celebrando a morte.
Até que um dia, Severina foi acordada no meio da noite, um novo cliente chamava pelos seus serviços, coisa inesperada, acidente na estrada.
Ainda meio capenga, o sono querendo os olhos fechar, lá foi a carpideira, de véu negro amarrado no rosto, na noite fria de outono, seu choro alugar. Chegando no lugar anotado, no pedaço de papel amassado, subiu pela escada pedindo licença aos presentes que já se aglomeravam na entrada.
O caixão ao fundo, arranjos de flores em volta, familiares em torno, uma cena que ela já tinha visto dezenas, centenas de vezes. Enquanto caminhava em direção ao cliente, sua atenção foi atraída pelo senhor que chorava copiosamente, talvez tão bem quanto ela própria. Seu rosto contraiu, seu alerta acionado, seu andar apressado para olhar quem era o morto deitado.
Ao chegar ao lado do caixão, as pernas bambearam, o ar faltou, um “não” atraiu os olhares de todos presentes. E Severina chorou como nunca, desta vez a consciência falou alto, talvez para compensar tanto tempo calada, sem palpitar.
O filho adotivo do seu Pondé jazia inerte, vítima de um acidente de carro na noite do seu aniversário. Severina teve a melhor performance de sua vida, todos os que estavam em volta se impressionaram com o sentimento do seu choro, baita profissional.
A vida surpreende mesmo, em cada esquina, em cada volta.

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