Livro Ladeira Da Memoria A Primeira vezDizem que para tudo existe a primeira vez, é verdade, e que a gente nunca esquece, o que já não é tão verdade. A Valisere registrou isso sobre o primeiro soutien, e muita gente concordou, e premiou. A minha primeira cueca eu confesso não ter a menor noção quando foi, qual era a cor. Verdade, o primeiro soutien deve ser mais marcante, no meu caso, acho que já nasci de cueca, não dava para ser marcante.
Quando olhei a Mia pela primeira vez, fiz um retrospecto de algumas “primeira vez”, e tentei projetar as que aquele tão frágil ser, recém-chegado, irá ter, o primeiro soutien deve estar na lista.
Não lembro da primeira vez que peguei uma gilette para me barbear, e deve ter sido marcante. Nem da minha primeira bola de futebol, um objeto que durante muitos anos foi minha paixão e com quem tive muita intimidade, modéstia a parte, até acima da média.
Mas me lembro perfeitamente da primeira vez que vi o rosto da minha primeira filha, eu estava na sala de espera da Pró-Matre Paulista, na manhã do dia 17 de março de 1980. Bem diferente da primeira vez do Ariel, meu genro, que viu sua primeira filha ser expelida na banheira durante os procedimentos do parto natural. Confesso que nunca tive vontade de ter, dessa forma, a primeira visão de um filho no mundo, não sei como encararia depois a área de escape.
Hoje, logo cedo, quando olhei para a minha segunda neta, já tenho uma, pela primeira vez, muitas coisas me vieram à mente, acho que já disse isso. A primeira, foi apreciar aquele rosto tão lindinho e finalmente conhecer este ser tão esperado, que não tem a menor noção de quantos estão loucos para tê-lo em seus braços. Aí, a Mia começou a se contrair, franzir o rostinho, parecia sentir uma pontada, algo parecido com cólica, chegou a soltar um gritinho, mas não chorou.
Nessa hora, tive a sensação de que ela estava se preparando, se moldando, como quem sai de um ambiente perfeito, seguro, confortável, e está prestes a encarar uma fase mais difícil do seu game de vida.
Para ela a batalha está apenas começando. Por chegar nesse momento do planeta, certamente sua missão é daquelas heroicas, em um território hostil, fazendo parte de um exército de luz que irá combater os monstros do desamor, egoísmo, da maldade. Lembrei da mãe da Mia me pedindo para eu passar de fase na hora de encarar o chefão no game.
Agora a tarefa vai ser dela e do pai, no início pegando no colo, dando a mão e mostrando para a Mia os caminhos, os atalhos, os truques no controle. Depois, apenas orientando, sinalizando, respirando fundo e deixando que ela própria encontre os seus caminhos, os seus atalhos e crie os seus truques para se dar bem na sua missão.
É aí que a gente percebe o ciclo se completando e reiniciando, com novos personagens, novas missões, novos desafios. É quando vemos nossa garotinha encarando uma fase de gente grande, vencendo etapas, partindo para outras, enquanto permanecemos de longe, de perto, monitorando, curtindo, vibrando, acompanhando.
Tudo tem a sua primeira vez, algumas delas a gente registra, feito tatuagem, que você esfrega, mas não lava.
Bem vinda, Mia, amei a minha primeira vez com você.

Anúncios