Houve um tempo em que a gente seguia na trilha, dia após dia, e podia, conseguia, ir com tempo de voltar, tentar e experimentar, o tempo dava um tempo pra gente se perder e procurar, avaliar, se achar ou deixar pra lá. O máximo que se perdia era tempo, e a gente tinha tempo para perder, para enrolar, para degustar.
Aí, o tempo se valorizou, se achou, se colocou acima da gente, e nos comprou, nos amarrou, nos sufocou.
Hoje, todos vão ao ponto, ninguém perde tempo, ninguém se dá um tempo, a ordem é ser objetivo, direto, sem dispersar, sem se aventurar, sem tentar, o que vale é chegar.
Tão cansado da linha reta, que vai no ponto, que não dá voltas, não se dá, nem se entrega. A linha reta que vai onde tem que ir, mesmo que não saiba onde.
A linha reta que não olha pro lado, só olha pra frente. Que não se importa se você cansou, machucou ou só quer dar um tempo.
O tempo que não se tem, talvez nem exista, mas é desculpa para não se perder. E muitas vezes, é preciso se perder, para se achar, porque a verdade é que a gente não sabe, e só começa a saber quando faz o que não sabe, quando vai sem saber, quando perde para achar.
Tão cansado da pretensão, do sabichão, do dono do não. Não é por aí, agora não, não sei não, não e não. Tão cansado de levar não, gosto não, não dou não, não vou não, aprovei não. Um não que já está no gatilho, que vem sem pensar, sem tempo de avaliar, sem tempo, de novo ele, que me racha, me quebra, me mata.
Mas hoje tudo é feito pra quebrar, pra gente trocar, pra roda rodar. Sem dar tempo de tentar consertar, mais fácil mudar, melhor matar, pra que lutar, não vale tentar, não. Não e não.
Aí, a saída é pintar outra mão, outra cor, parar, virar e pegar a contramão. Sem se importar se eles veem, você volta. Eles na reta, você dando voltas. E o tempo se faz, mesmo que não exista, e o não vira sim, porque não é preciso sangrar pra saber que está vivo, nem ver para crer, nem ir direto ao ponto, pra ganhar o ponto.
E a linha que siga, reta e direta, sem tempo e sem volta.
Você segue a sua, na sua, no seu vai e volta. E o tempo que se lixe, a linha reta que se entorte, o mundo que se exploda. Você faz a sua trilha, de retas, curvas e voltas. Quem quiser que te acompanhe, quem não vier, que te perdoe.

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