A culpa foi do Facebook, João não tinha a menor dúvida. Sempre que entrava e começava ler as postagens, acabava por fazer diversas reflexões, entre elas aquela fatal: “o que eu estou fazendo aqui sozinho??? Tanta gente como eu, sem alguém, carente, honesta, precisando de um papo legal, cabeça, inteligente, como o meu!!!”.
João começou a focar as postagens com uma segunda intenção, que rapidamente passou a ser a primeira, arranjar alguém, a sua Maria. Entrava nos perfis, dava uma geral na candidata, aparência, grau de instrução, conteúdo do material que ela costumava postar, curtir, esse era o básico. Saber a idade é mais complicado, normalmente tem só a data de nascimento, talvez por facilitar ao Facebook disparar a informação do dia do aniversário, claro, quem não gosta de ganhar beijos e abraços de parabéns, mesmo que virtual. Mas pelo tipo de gosto musical, época de faculdade, não dava para disfarçar tanto esse segredo guardado pelas mulheres a sete chaves.
Com certa frequência, João passou a deixar um “Bommm diaaaaaa!!” no perfil da pretendente, ou dava uma curtida em alguma postagem interessante dela, e monitorava as reações. Às vezes, vinha um retorno com algum comentário, um “curtir”, mas não passava muito disso. Meio decepcionado, comentou com um amigo que foi logo entregando a sua estratégia pessoal.
– Na sua roda de amigos dificilmente vai pintar alguma coisa, Jony, o lance é contatar desconhecidas, amigas dos mais chegados. Você entra no perfil dos amigos, dá uma geral nas amigas deles e manda mensagem, como quem está expandindo seu círculo, nada muito escancarado, apenas toques, tipo “achei muito legal um post que você fez, queria comentar, mas como não sou seu amigo, não deu, pena”.
– E funciona?? – perguntou Jony achando interessante.
– É como garimpar ouro com peneira, tem que batalhar muito, semear, jogar muita conversa fora, sempre acaba pintando alguma coisa na bateia. As vezes ouro de tolo, as vezes coisa boa, nenhuma pedra preciosa, no fim, o que vier é lucro.
Em último caso, tem o encontro às escuras, tem gente que se deu bem. Posso armar pra você.
– Não faz muito meu estilo, mas se você acha legal, manda ver – respondeu Jony, ainda pensativo.
O amigo armou e Jony foi. Era para ir de camisa vermelha, mas a única que tinha estava lavando, e ele foi de amarelo. Sentou no banquinho do bar como tinha sido combinado e esperou. Dez minutos… meia hora, nada, já começava ficar incomodado. Foi quando notou a presença de uma loira, que também parecia esperar, ela não estava de casaquinho preto, como combinado, devia estar lavando.
Jony olhou, a loira olhou. Jony endireitou o corpo em sua direção, ela também. Ele pegou o seu copo com whisky e fez um gesto de brinde, ela respondeu com o seu copo. Daí para um início de conversa foi questão de centímetros, logo vencidos.
O papo engrenou tanto que nem perceberam quando entraram apressados, um homem e uma mulher, ele de camisa vermelha e ela de casaquinho preto básico e se acomodaram próximos a eles no bar. Os dois olharam em volta, procurando, até que seus olhos se cruzaram, e a conversa entre eles começou a rolar.
Ali ao lado, Jony e a loira papeavam, estava escuro, mas não o bastante para ele deixar de notar um saliente pomo de adão na sua companheira de encontro.
À noite todos ficam pardos, quem não tem gata, pode ficar com cão, a Maria pode virar João, encontro às escuras, pode ser bom, ou não.

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