“Um homem de 27 anos morreu no início da tarde desta sexta-feira (1) no município de Feira de Santana, a cerca de 100 km de Salvador, após ser atingido por uma bala perdida. Segundo a polícia, dois homens tentaram assaltar uma casa lotérica, estavam sendo perseguidos e durante a fuga atiraram para trás. A vítima morava em Camaçari e estava em Feira de Santana com a esposa para fazer compras para o enxoval do bebê. A esposa da vítima está grávida de sete meses.”
Parece coisa de ficção, sinopse de filme da sessão da tarde, mas aconteceu, e nem foi nas perigosas ruas de uma capital, não. Antigamente, quando se ouvia falar em bala perdida, na hora saíamos em busca da bala Juquinha, Paulistinha ou a Chita, aquela embrulhada em um papel amarelo com o desenho da macaca do Tarzan, era de ananás, depois saiu a de uva e outros sabores.
Difícil ler uma nota como essa e não parar para pensar, refletir sobre esse tiroteio de interesses, buscas, desmandos, assaltos à nossa essência. Pior é passar pela chamada que menciona mais um caso de morte por bala perdida e nem se interessar em ler o que aconteceu, saber como os peões se viram nos banhos do A Fazenda 5 tem mais cliks.
Quando as balas perdidas deixam de ser as de hortelã e passam a zunir nas esquinas de uma cidade qualquer, como dessa do interior da Bahia, é sinal de que o salve-se quem puder virou cartaz permanente do filme de vida de qualquer um, mais uma demonstração da democracia dos nossos tempos. A mesma democracia que é exaltada pelos políticos de todos os tempos e usada como bandeira para distrair os nossos olhos numa manobra certeira que nos faz vítimas perdidas. Que nos faz pacientes de hospitais que não atendem, e que exigem que nos tornemos sempre mais pacientes e mal atendidos. Que nos faz marionetes de um teatro burlesco, a farsa política da assistência social, mãe da bala perdida, da vergonha perdida, da dignidade perdida, da humanidade perdida. Essa é a bala certeira que atinge os nossos corações, nossas esperanças, enquanto os mensalões corrompem ano após anos o discurso perdidamente forjado.
Todo dia, balas acham vítimas em cada esquina perdida de uma cidade qualquer, sem que ninguém perca mais do que um passar de olhos sobre o assunto já banal. Todo dia, políticos se descobrem envolvidos em esquemas que buscam formas diferentes de roubar nossas confianças, sem a menor preocupação de serem pegos. Todo dia, vítimas deixam pais, homens, mulheres, amigos, encharcados em suas lágrimas por perdas que não serão repostas, nem justificadas.
Na última sexta-feira, uma bala sem pai nem mãe, atingiu um pai que, ao lado da mãe, comprava roupas para o filho que vai nascer e ele não vai ver. Em uma cidade que não era a dele, o jovem de 27 anos achou uma bala que fez companhia à sua vida, agora também perdida como ela. De certo, fica apenas a sensação de que estamos todos perdidos, como a bala, como a vida, que perdeu a importância que já teve um dia.

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