Seu olhar estava perdido no nada, olhava sem enxergar, processando, processando sem concluir. O pensamento voava com a liberdade do espaço irrestrito, sem limites, apesar da sensação das amarras, por quê?
Há poucas horas soube da amiga, companheira de um grupo de orações, muito jovem, que partiu no meio da noite, vítima de uma parada cardíaca. Tentava entender a razão, o motivo, e nesse instante, um pássaro fez um rasante, e o olhar perdido viu sua manobra precisa, numa velocidade alucinante, um mergulho que durou uma fração de segundos, e depois ele subiu, subiu até sair do alcance dos olhos. Não dava mais para ver o pássaro, mas certamente ele continuava fazendo manobras em algum lugar.
Foi quando percebeu a resposta aos seus questionamentos, foi como se aquela breve cena resumisse toda uma vida.
Não importava mais a falha no trabalho, no dia anterior, nem a decepção com o amor que partiu ou a discussão com o amigo do peito. Nosso voo é rápido, nosso ser é livre e a vida segue além dos nossos olhos.
E nessas horas, em que a porta da nossa gaiola se abre, o que a gente leva é o que aprendeu durante o tempo no ar. Está tudo registrado no nosso plano de voo, e o que importa não são as turbulências, mas como reagimos a elas.
O que vale é a experiência de ter vivido, superando os obstáculos, aprendendo com os tropeços, contornando os ventos contrários. Se pousamos em espinhos, na próxima parada ele não vai mais nos pegar. E se surgir outro tipo de espinho, um novo registro será marcado, mesmo que tenha sangrado o rastro, faz parte da vida, o importante é seguir voando. Sem se abater com as tempestades, elas virão, em algum ou vários momentos da trilha. Sem perder a fé, nem a vontade de ver surgir o sol novamente. Sem se desviar do caminho, mesmo sem saber direito as curvas que ele possui. A retidão está na postura, mesmo que se veja obrigado a dar voltas, uma hora bate o vento a favor, essa é uma lei do Universo.
E se durante o voo você contribuir para sinalizar e facilitar o caminho dos seus companheiros, vai descobrir o prazer maior desse livre arbítrio, que ensina o quanto dar é mais gratificante do que receber. Essa talvez seja a lição mais importante presente na gaiola da vida em que vivemos, é o mais valioso bem que iremos levar quando a gaiola de cada um se abrir para o nosso voo mais alto.
É quando as nossas asas se abrirão com envergadura plena, e ganharão os tons do amor maior, e nos levarão para um plano mais elevado de voo, sem nenhum tipo de amarras, sem nenhum limite, fora de qualquer tipo de gaiola, livres apenas para voar.
Seu olhar agora era sereno, um sorriso vago clareou seu rosto enquanto ele lembrava da amiga. Imaginava como devia estar se sentindo, voando com suas asas plenas em potência e suavidade. Ela era jovem, muito jovem, mas o seu ser já devia ser muito experiente em horas de voos, merecia passear fora da gaiola.

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