A coisa estava brava, a atividade tinha virado a bola da vez, depois de pegarem no pé das uniformizadas. Canela tinha tentado uma última tacada ao convocar um renomado advogado criminalista para tentar uma saída que colocasse a labuta dentro das vias legais.
A orientação dada pelo Doutô era que eles se unissem e formassem a Associação dos Cambistas Paulistas, o que permitiria que oficializassem a profissão e pudessem atuar de forma limpa e aberta nas portas dos estádios, casas de shows, teatros e demais eventos de grande porte. Eles, que já haviam expandido suas fronteiras para a América Latina, com os jogos da Libertadores da América, poderiam assim virar referência mundial da conversão à lei e bons costumes. Para isso teriam que aceitar reduzir suas margens de lucros de 80, 120, 200%, dependendo da importância do evento, para os tradicionais 10% de Bonificação Voluntária, o conhecido BV. Além, claro, de cadastrarem cada um dos profissa, confeccionar carteirinhas e demais formalidades.
Infelizmente, na convenção dos cambistas, orquestrada pelo Canela em concordância com o advogado, a proposta foi rejeitada por cerca de 90% dos profissionais da área presentes.
Com isso, a busca por atividades paralelas lucrativas foi intensificada, e novamente o Canela surgiu com uma ideia mirabolante, criativa e contundente. Na verdade, foi Meia Boca que apareceu com dois gansos, que estavam dando mole na casa ao lado do estádio de Presidente Prudente onde iriam jogar Palmeiras e Corinthians. Após calar o bico, literalmente, do casal de interioranos, Meia Boca transportou a dupla para São Paulo e agora estava diante de Canela que andava em volta dos bichos, mão no queixo, pensativo, como quem busca no seu HD cerebral mais uma solução das suas, normalmente geniais, do ponto de vista de sua equipe de trabalho.
Em um dado momento, seus olhos brilharam, e os presentes no escritório imediatamente captaram o sinal de que o chefe havia chegado lá, mais uma vez.
Ainda em processo de elucubração criativa, Canela foi verbalizando seu plano, como quem recebe uma inspiração divina: – Nós vamos montar um número de dança com os gansos.
Meia Boca e demais assistentes se olharam espantados, sem entender nada, certos que o mentor estava com problemas de linha cruzada com sua fonte espiritual.
Canela, percebendo os pontos de interrogação na testa de cada um, deu um sorrizinho maroto, próprio dos líderes que se encontram muito acima da média presente, e detalhou seu projeto.
– A gente vai propor para o Carlovich, do Circo Isvarowisky, o casal de gansos que dança conforme a música.
– E quem vai treinar os gansos??? – perguntou Dedinho, maravilhado.
– Que treinar??!! Nós vamos pegar aquela carrocinha que a gente usava para os shows de marionetes. Onde era o palco, a gente coloca uma folha de metal, com serragem por cima e um maçarico por baixo. Você fica no controle do maçarico, Meia Boca no controle da música, e conforme a melodia, mais rápida, mais lenta, você aumenta ou diminui a chama.
Os gansos dançarinos estrearam no mesmo final de semana. Um sucesso absoluto, tenda lotada, com direito à venda de ingressos no câmbio negro, administrada pelo escritório, claro.
Até que a Sociedade Protetora dos Animais descobriu e entrou com liminar impedindo as apresentações do casal de artistas.
Nova reunião de brainstorm foi marcada no escritório, Canela precisava canalizar uma nova inspiração de negócios. Pelo menos naquela noite o jantar do grupo de trabalho estava garantido, graças à sociedade que protege os bichinhos: ganso ao molho pardo.

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