Parecia coisa de filme, daqueles em que a situação se encaminha para o limite, aquele momento final, o impasse que leva para o confronto definitivo. A autoridade maior tem a última palavra, e está frente ao botão vermelho: apertar ou não apertar.
Quem já não quis apertar o botão e fazer tudo em sua volta explodir? Tem hora que mesmo que exista uma saída, perdeu a graça, a sensação é que nada que possa acontecer traz de volta a felicidade simples e ingênua que já tivemos. E aí, melhor explodir mesmo, mas não temos um mero botão vermelho para fazer o serviço.
Adalberto vivia esse momento, sentado sobre a cama, olhar baixo, como se estivesse vendo o seu botão final à frente e ainda relutasse em apertá-lo.
Sua mente fazia um passeio rápido pelos últimos acontecimentos, procurando algum tipo de erro de avaliação, algum detalhe que o fizesse descobrir uma nova versão, um novo caminho frente a tudo, mas não parecia o caso, era isso mesmo. Podia até ter uma saída de emergência, mas a porta parecia lacrada.
Lembrou dos seus tempos de criança, como tinha tempo de sobra para não fazer nada. Lembrou da adolescência, quando o que menos importava era o tempo, o importante era viver, sem pensar no amanhã. Lembrou dos tempos de casado, quando todo o tempo era usado para trabalhar, produzir, para nada faltar à família. E agora essa sensação de que não havia mais tempo para investir, esperar os resultados para depois colher os frutos. Cada minuto parecia ser determinante para o futuro se definir, e o futuro chegava e nada havia mudado.
Um botão, se eu tivesse um botão, mandava tudo pelos ares!!! Seu pensamento corria atropelando, indo e voltando, buscando uma brecha no tempo. Até que soou o celular, quem ligava foi logo identificado na bina, em letras garrafais, ele hesitou se atendia ou não.
Ao apertar o botão de atender, sentiu como se estivesse apertando o outro, quase tapou os ouvidos, mas aí não iria adiantar. Então, ele ouviu.
Ao desligar, sua expressão era de quem havia acabado de nascer, inclusive o choro, só faltou o tapinha do médico no bumbum do neném, totalmente dispensável.
Não importa quanto temos de kilometragem, o frio é conforme o cobertor e basta estar vivo para se reinventar, e assim, renascer, isso vale para qualquer momento de nossas vidas. Quando caímos, continuar no chão não nos leva a lugar nenhum, levantar é uma via de mão única e obrigatória. Pode exigir um esforço que pensamos não ter ou querer, pode parecer que é mais do que podemos suportar. E aí, é preciso morrer.
Só aceitando a morte do que já passou, do que não funcionou, do que magoou, machucou, é que ficamos aptos a renascer.
Temos esse tipo de sentimento quando vira o ano, mas esta época da Páscoa possui componentes mais apropriados para entendermos a necessidade de morrer para renascer.
A gente vive querendo mudanças, mas continuamos praticando tudo da mesma forma, querendo o novo, atrelado ao velho, que um dia pode ter funcionado, mas não mais. É aí que a Páscoa inspira, o deixar morrer para que possamos renascer. Mesmo que a gente plagie a quarta palavra do crucificado, “Deus, meu Deus, por que me abandonaste!”. Se Ele foi capaz de se sentir tão jogado à própria sorte, imagine nós.
Aproveite a Páscoa, dê um basta, aceite morrer e faça diferente para renascer. Esse é o botão que está ao nosso alcance.

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