Carla surgiu calada, primeiro sentou ao meu lado, depois deixou o corpo cair para trás e deitada ficou, como eu, sobre a grama úmida de orvalho, e calada ficou.
Acompanhei tudo com os cantos dos olhos e quando ela se acomodou, voltei meu olhar para cima, como estava já há algum tempo, focando as estrelas. No começo, algumas poucas, esparsas, com o tempo, uma a uma se revelando, até formar uma colcha de pontos de luzes deslumbrante, majestosa, fascinante.
Me perdi novamente naquela imensidão de mistério, um universo que não nos damos conta existir e está ali, o tempo todo, a nos cobrir e acompanhar. Esqueci de Carla, meu olhar levava minha mente numa viagem sem escalas ou roteiro, me perdi, até que ela me achou.
Caraca! É muito grande!!
– Muito – respondi sem tirar os olhos de um ponto que pulsava de forma regular, intrigante.
– Será que tem alguém olhando pra cá, como a gente olha pra lá?
– Se não tiver, é puro desperdício de espaço!
– Verdade.
– O que vem na sua cabeça quando você olha isso?
– Que foi bobagem eu responder feio pra você lá dentro. Que é impossível que a gente esteja sozinho nessa imensidão toda. Que os nossos problemas ficam tão pequenos e a gente perde muito tempo com coisas que não valem a pena. E você?
– Eu… que tem muita coisa que eu queria entender, muita. É tudo muito bem planejado, intrinsecamente relacionado, integrado, que tem que existir uma inteligência maior que foi capaz de gerar tudo isso. Cada coisa no seu lugar, com uma função, uma razão, uma interdependência entre si. Para quê?
– Verdade. E você acredita que está tudo determinado, escrito nas estrelas?
– Tudo, tudo, não, acho que não. A gente muda o curso, fala bobagem, pisa na bola. A gente busca, deseja, conquista, depois despreza, a gente discursa, prega, aponta, critica, e não pratica. A gente corre, atropela, se estressa, cobra, se cobra, e nunca se satisfaz. E quando para e olha tudo isso… percebe que o todo é muito maior que esse mundinho, esse nosso grão de areia. A gente não deve passar de um vírus nesse programa, nesse jogo. E quando menos espera… game over.
– Vixe, se a gente estivesse na praia eu ia dizer que está na hora de sair do sol!!! Eu retiro tudo o que eu disse lá dentro, estou pedindo desculpas, pronto!!
– Agora é tarde, agora já machucou.
– E você vai fazer o quê? Vai ficar aqui esperando uma nave passar e cair fora?
– Eu… não sei… acho que vou entrar, assistir o BBB, o Zorra Total…
– Já pedi desculpas, Caraca!!! Se é para cometer suicídio, corta os pulsos!! Mas não tortura, não judia! Olha o que você falou! Nós somos vírus num grão de areia, a gente prega, aponta e não pratica, a gente cobra, se estressa, critica, não tá nunca satisfeito, nem tá sozinho nessa porra de imensidão de universo do cacete!! Vamos parar com esse lenga lenga, que não leva a nada, não paga contas.
Deixa a inteligência maior cuidar dessa merda toda, Ele que criou, Ele que conserte. E chega!! Pedi desculpas, tô carente, me sentindo culpada, encucada se tem ET lá em cima, e esse papo já deu. Quem vai dar agora sou eu, vamos transar!
Taí, você acaba de voltar para o que estava escrito! Essa é a Carla que eu amo! Bora!!

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