Ontem, andando pelo shopping vi uma cena que me chocou, um homem de meia idade, não devia tomar banho já há alguns dias, roupa suja, desgastada, mancando com a mão esquerda levantando a barra da calça na altura do joelho esquerdo. Uma figura típica de perambular pela Rua Direita, jamais em shopping center.
No mesmo instante, fiquei chocado com o meu choque, com o meu olhar em busca pelos seguranças, alguém devia ter afrouxado o controle. Só neste momento me dei conta do quanto estamos sendo blindados do contato com o mundo real.
Falo com base nas minhas experiências pessoais, certamente nem todos estão passando por isso, mas das idas ao trabalho de ônibus para Av. Paulista, compras na Rua São Bento, ida a pé no cinema da Av. São João, para o trajeto feito de carro, vidros fechados, da garagem de casa, saindo pelo portão do condomínio, para o estacionamento do shopping, nenhum contato físico. Fiz compras, fui ao cinema, supermercado, e poderia até estar trabalhando na torre de escritórios que fica dentro da área do shopping, ao lado do Hotel Ibis. Havia mudanças sim, que nem me tinha dado conta.
Já havia parado para pensar nisso quando, ao visitar minha filha, andei por ruas de um novo bairro da cidade só com condomínios, todos os quarteirões murados. Nenhuma criança jogando pelada na rua, nem carrinho de sorvete Skimo passando.
Voltando ao homem de meia idade, que mancava e segurava a barra da calça na altura do joelho esquerdo, acabei acompanhando-o para observar a reação das pessoas. Enquanto lutava contra o meu preconceito, tentando dar a ele o direito de ir e vir, olhava para as pessoas que não olhavam para ele. Tentei ainda vê-lo como alguém que tinha tido algum contratempo ou que morasse em algum sítio na redondeza do shopping que fica numa alça de acesso à rodovia. Minhas tentativas de trazê-lo à condição de um cidadão comum morreram quando ele abordou um senhor para pedir algo, ajuda, dinheiro. Era mesmo um mendigo que havia transposto as muralhas do templo de consumo em busca do seu público alvo. Acelerei o passo e não voltei a observá-lo.
Alguns minutos depois, quando fiz o caminho de volta pelo mesmo corredor, nem sinal do pedinte, o sistema de seleção do shopping deve ter entrado em ação e feito a separação entre os que podem e os que não podem.
Minha reação ainda me incomoda, sinto que é um sinal de que estamos perdendo o contato verdadeiro com o mundo e todo o seu cardápio de imposições. Que a primeira vista podem não ser apetitosas, mas têm o valor de serem verdadeiras.
Estamos criando um mundo à parte, onde vivemos as experiências à distância, quanto mais distantes, mais seguras. Uma vez protegidos em nossa muralha, o virtual passa a ser uma virtude. E nos relacionamos virtualmente, entretemos virtualmente, fazemos compras virtualmente ou lemos este texto virtualmente.
A necessidade de estarmos presente, olho no olho, não é mais necessária, o que nos poupa tempo e desgastes, e assim nos preservamos. Na verdade, nos preservar é o motivo maior, mesmo que isso signifique não viver.
Não sei o que cada um pode fazer, nem mesmo se este processo tem volta, até porque ele parece correr independente da nossa vontade. Mas está acontecendo e é importante, no mínimo, perceber.

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