Alguém, mais de um, já disse que ao nascer, a nossa única certeza na vida é morrer. Enquanto isso, a gente envelhece.
Nossa aversão a este processo de envelhecer está tão à flor da pele que a indústria de combate ao natural é ampliada a cada novo suspiro de insatisfação. Alguns se empenham nesta missão, de evitar o inevitável, de forma voraz, como uma questão de vida ou morte, que virá, apesar de todos os esforços.
Em algumas tribos humanas ninguém perde tempo com isso, mas também, muitos nem civilizados são, coitados. Nessas tribos, as pessoas não envelhecem, ficam, a cada dia, mais sábias. Cada sulco em sua pele é o registro da caminhada feita, de tropeços, quedas, vitórias, prazeres, conquistas, perdas. A ruga de preocupação está no agora, nem no antes, nem no depois, e eles nem precisaram ler a bíblia ou um livro de auto-ajuda para aprenderem isso. Estranhamente, as pessoas dessas tribos consideradas não civilizadas já nascem sabendo, já nascem sábias.
Os anciões dessas tribos são fonte de consulta, não de pena. São tratados com o supremo respeito, não como crianças, são vistos como portadores do conhecimento, não como ultrapassados. Eles não se desculpam por serem velhos, nem se escondem da vida por se sentirem fora do padrão, nem são marginalizados por estarem fora do prazo de validade imposto. Eles apenas seguem, porque é isso que deve ser feito.
Keep walking, mais do que uma brilhante frase publicitária bem sucedida, esse deveria ser um mantra universal, uma filosofia de vida, sem a necessidade de retoques ou plásticas, o tempo não vai torná-la velha e descartável, é para toda vida.
Deteriorar-se com o tempo é um dos toques divinos mais contundentes sobre suas criaturas vivas, e o mais significativamente genial. Porque é cabal, definitivo, imutável, independente da sua condição social, econômica, cultural. Motivos suficientes para chegarmos à conclusão que aparentar não é ser, que as diferenças externas de nada importam, que se preto, branco ou amarelo, novo ou não, o valor está no ser interno, não na embalagem.
Dizem que essa consciência a gente adquire com o tempo, com o passar dos anos, mas não é preciso perder tempo com isso, basta observar e pensar. E praticar essa verdade.
Numa época em que se compra cada vez mais pela embalagem, não é de se estranhar a busca desenfreada por combater rugas, cabelos brancos, ou a falta dos próprios, a pele flácida, o efeito da gravidade ou a gravidade do cansaço das fibras. E a recompensa, para quem se torna obsessivo nesta tentativa, além de achar que os outros nem imaginam a sua idade, é estar em plena forma estética ao finalmente repousar a sete palmos ou virar cinzas.

Anúncios