Antigamente, todo homem encomendava suas roupas a um alfaiate, um artista que fazia da tesoura, linha e agulha seus instrumentos de ofício para uma obra de arte. Juntava tecidos diversos, cada um de acordo com o papel que iriam desempenhar, se da melhor trama e fios, na frente, se não, como forro, bolso, verso de lapela. E suas mãos hábeis aliavavam materiais nobres e simples, para depois finalizar formando um conjunto harmônico, elegante, de caimento perfeito.
Os alfaiates andam cada vez mais raros, mais fácil comprar roupa pronta. Não tem o mesmo acabamento na maioria das vezes, mas é mais prático, certamente econômico, e esse é o padrão que comanda muitas das nossas ações hoje em dia, em tempos de fastfood. Muitos dos profissionais que continuam na lida nem mesmo alinhavam mais antes de passar na máquina para arrematar, vão direto ao ponto, mesmo que o resultado não seja tão preciso. Perder tempo é perder o passo, sinal dos tempos.
Se lá eles podem estar perdendo o hábito, na vida alinhavar continua sendo um procedimento padrão e sábio, mesmo que nem se dê conta, que já tenha ficado automático. E quando não se faz, a coisa pode desandar.
A gente passa a vida juntando tecidos diferentes, um para cada uso, interesse, cor, tom do momento, e costurando as bordas para no fim se encaixarem da melhor forma. É dentro de casa, com os filhos, nos relacionamentos, no trabalho. O segredo vai estar sempre na habilidade de saber como alinhavar cada pedaço do patchwork da nossa colcha de vida, e quem manda nesse momento é a paciência, o equilíbrio. O apressado não só come cru como costura mal, não fecha as pontas e depois vai ter que refazer tudo, muitas vezes com prejuízo incontornável.
O importante é usar o bom senso e a lei do pêndulo, dar e receber, o que vai, volta, nem mais, nem menos. No fim, tudo é uma questão de medida, pode ser uma coisa boa, que em excesso, vira ruim. A água, por exemplo, é essencial à vida, 85% do nosso cérebro é constituído de água. 80% do pulmão, assim como do sangue. Por outro lado, da mesma forma que salva, ela pode matar por afogamento. Como o fogo, que nos aquece ou é útil no preparo dos alimentos, e pode destruir se fora de medida. É a mesma água, o mesmo fogo, que só mudam de lado, por isso a importância de sermos compreensivos, de avaliarmos outros pontos de vistas da mesma questão, sem ego, arrogância ou soberba.
Nada é totalmente favorável ou completamente ruim, depende do momento em que nos encontramos, de que lado estamos. E quando nos tornamos alfaiates da vida, exercemos a função mais fundamental para a nossa convivência em grupo: medir, alinhavar, costurar interesses, sonhos, tarefas, anseios, expectativas, na medida, sempre.
Dando e recebendo, concedendo e exigindo, nem mais, nem menos, o suficiente para estarmos e fazermos felizes quem está à nossa volta. Simples, simples assim.

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