Cinzas, que se antecipam à nossa vontade, cobrem nosso desfile da alegria, calam a bateria, pra tudo se acabar na segunda-feira.
Cinzas, que não é preto, nem branco, que nos deixa sem cor, sem vida, sem ar, que nos deixa sem acreditar.
Cinzas, do ser que queimou e ficou de renascer na nova etapa que desconhecemos e tememos.
Cinzas, de uma quarta-feira que chegou com a tristeza e deixou o silêncio gritando na alma.
Por mais que nos achemos prontos, por mais que nossas crenças nos guiem, por mais que saibamos que faz parte, nada, absolutamente nada nos prepara para as perdas da vida.
Vida, essa senhora que nos acompanha e que nos deixa, sem aviso, sem a menor cerimônia. Tantos já falaram dos seus mistérios, tantos já quiseram decifrar os seus sinais e a falta deles. Não importa o quanto nos apeguemos, o quanto a busquemos entender, ela nos surpreende, para o bem, para o mal, sem complacências nem satisfações, com sua autoridade soberana e mortal, imortal.
E vira cinzas, que se esfarelam e se desfazem em nossas mãos, aos nossos olhos, virando nada, do tudo. E assim são, quer a gente queira ou não, e não mais são.
Então, qual a razão, que motivos nos levam a esse jogo da vida? Apenas experimentar ter para não mais ser? E saber viver para saber perder?
Tem hora que esse jogo fica chato, tem hora que jogar não mais atrai.
Quando a gente perde um participante que nos ajuda a seguir jogando, a vontade é se rebelar, fazer um motim, uma greve de fome, de vida. E aí, a gente percebe que não adianta, que excluir participantes, incluir outros, faz parte deste BBB divino. Uma gincana onde a gente não sabe quais são as verdadeiras regras, nem as tarefas, nem os objetivos. A gente não sabe o que se ganha ao final da gincana. Daí cada um resolver jogar da forma que convém, e uns reclamam que não é justo, e outros rebatem que guerra é guerra. E cada um por si!
Tem hora que o jogo cansa, tem hora que a gente pensa em desistir.
Nessas horas, a saída é acreditar, a única alternativa é ter fé.
Fé em quem criou o jogo, afinal, é tudo tão complexamente tramado para estarmos jogados ao acaso.
Fé em quem escolheu os participantes e determinou cada um dos acompanhantes que nos auxiliam na tarefa de ir até o fim sem esmorecer.
Fé em acreditar que nada acontece sem uma razão.
Quando nos sentimos cansados, abatidos com as nossas perdas, não damos uma demonstração da nossa falta de acreditar, apenas nos deixamos envolver pelo direito humano que temos de nos entristecer.
E se às cinzas voltamos, como a fênix, das cinzas renasceremos, como o nosso amigo que se foi, e que um dia iremos reencontrar. Até mais, Dé.

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