Era a primeira vez dele no Rio, e tinha escolhido estrear a cidade maravilhosa justo nos dias de carnaval. Se o Rio já é lindo nos dias comuns, que lá nunca são comuns, durante a folia do Momo a cidade atinge o seu ápice, um colorido, uma energia única. O pessoal dos negócios alternativos parece fazer uma trégua nessa época, afinal, tem ensaio todo dia pra fazer bonito na avenida, o morro em festa, melhor dar uma pausa nas atividades paralelas, a ordem é se divertir.
Betinho também estava nessa, o que não dispensava todas as recomendações de sua mãe em relação a ficar esperto, não bancar o turista tolinho, olhos abertos, sem muita bebida e aventuras. Betinho já era grandinho, aliás, muito, em idade e tamanho, mas mãe é sempre mãe.
Antes de pegarmos estrada me disse que já tinha consultado um blog de dicas sobre o Rio, http://www.cariocasdaclara.com e estava por dentro de restaurantes, passeios, queria conferir os toques das meninas. Concordei já imaginando que a excursão iria ser cheia de emoções, só não pensei que seriam tantas.
Ficamos no apartamento de um amigo na Ataulfo de Paiva, em pleno Leblon, ponto excelente, mas sem vaga na garagem para o carro. Aliás, o Rio não tem estacionamento, nem mesmo em supermercados, que lá são chamados apenas de mercado.
Primeiro dia, Betinho pisou na calçada com desenhos geométricos em pedras pretas e brancas, encheu o pulmão com aquele ar delicioso impregnado de mar, e soltou um “Estou no Rio de Janeiro!!”. Foi nesse exato momento que alguém, não deu para ver quem, falou próximo a ele “VAI BALA?”.
Imediatamente, Betinho teve a visão de sua mãe recomendando “meu filho, fica de olhos abertos, é sua primeira vez no Rio, não banca o turista panaca”. Sua reação foi imediata, como um felino, um Jackie Chan tupiniquim, Betinho projetou seus 145 kg na calçada com desenhos geométricos de pedras pretas e brancas, rolando para a esquerda enquanto tentava desviar dos prováveis projétios disparados pela pessoa que o abordou.
Para piorar, ao mesmo tempo um carro dos anos 80 passou com o escapamento soltando sons curtos, secos, tal e qual disparos de uma arma de fogo, claro que no cinema.
Foi o suficiente para a avenida tranquila e movimentada do Leblon parecer um cenário de operação do BOPE em plena praia, só faltou o Capitão Nascimento.
Ao assistir Betinho ser atingido por uma bala, todos que estavam na praia se jogaram na areia, e assim ficaram, sem coragem de olhar para cima. Um pai saltou sobre os filhos que faziam castelinho, para protegê-los, as crianças estão internadas com alguma fraturas, mas sem risco de vida.
O ambulante que trazia cangas para vender jogou tudo para cima e saiu correndo, assim como os atletas que estavam na pista do cooper, as cangas caíram sobre os parabrisas dos carros que passavam, alguns perderam a direção, invadiram a mão contrária e vocês podem imaginar o cenário.
Eu estava um pouco à frente, comprando água de coco, assisti toda a ação como em câmera lenta, tipo Matrix, ao nível do solo, já que aderi ao instinto coletivo de autopreservação. Consegui ver Betinho levantando e saindo em disparada rumo Copacabana, Botafogo, Flamengo, linha Vermelha, Dutra, São Paulo, imagino.
Se o sonho era desfilar na avenida, pular o carnaval, pulou, literalmente.

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