Quando somos pequenos, velho é todo aquele que está acima do nosso campo de visão, não só velho, mas grande também.
Aí, começamos a crescer sem muito tempo para pensar no tempo que passa, até que atingimos a idade que a gente achava que não iria chegar tão cedo. É nesse momento que cada dia parece fazer diferença e ficamos atentos com a qualidade das horas que ocupamos para não serem desperdiçadas à toa. É nessa hora que refletimos sobre o que já fizemos e o que podemos ainda fazer. É exatamente a hora em que percebemos o quanto somos marginalizados do grupo que ainda tem algo a fazer.
Wando estava com o olhar pousado em algo tão distante que não dava para saber se via alguma coisa ou apenas olhava. Sua mente fervia em absoluto silêncio, vez ou outra soltava um profundo suspiro, e só. Seu amigo Jair chegou numa dessas horas, após um dos suspiros.
– E aí, pensando na vida???
A volta à realidade foi meio brusca, como se alguém desse um puxão no cordão que nos une ao nosso Eu espiritual, de volta à “terra”.
– Que foi… falou comigo??
– Calma! Viu quem morreu?
– Vi, vou ter que aguentar uns dias de sarrinhos. Apesar da pentelhação de termos o mesmo nome, vou sentir falta dele. Perdi a conta de quantas calcinhas conquistei pegando uma carona.
– E tava pensando em quê?
– Nada… na idade… que aliás, já é muito. Tava pensando em como vivemos um mundo de exclusão. Tem a exclusão social, depende de onde você nasce, que acessos tem ao estudo, que muitas vezes acaba gerando uma exclusão de consumo, dependendo da sorte e capacidade de conquistas. E depois de tudo isso, mesmo que você tenha sido um privilegiado e conseguido se infiltrar bem nas duas anteriores, tem a exclusão da idade, que é muito mais cruel porque vem acompanhada de um declínio físico natural.
– Tá filosófico, hoje.
– Nada demais, só falta do que fazer. Mas é de preocupar para nós que estamos chegando lá. Engraçado como a noção de quem é velho vai mudando com a idade. Meu avô morreu velhinho, velhinho, e tinha 73 anos. Quando eu tinha 20, os de 50 já eram caquéticos, hoje os de 60 me parecem na flor da idade. E estão! Maduros, curtindo a vida, experientes em todos os sentidos, no relacionamento amoroso, no trato com os clientes, na noção exata do que é prioridade, e o que não é. Do que é essencial e o que pode ser dispensável, frente a tudo que já viveram, do que já viram acontecer no trabalho, situações de abundância, crise, nada assusta. E na prática, são colocados à margem, rotulados de ultrapassados.
– Tudo bem que o seu aniversário está chegando, Wando, mas não precisa ficar assim! Vamos pegar umas meninas!!
– Que meninas!! Não é isso, ou… é isso também. Fico vendo, quando entro nessas redes sociais, as pessoas estão carentes, sozinhas, Tentando interagir, não se abater com o fato de não terem uma companhia, uma atividade que use todo o seu potencial de trabalho, que ainda está lá. Um alguém que compartilhe todo o amor que ainda tem para trocar, e simplesmente, não rola. E não estou falando só dos mais velhos, os mais novos também estão nessa! Se tem uma coisa, não tem a outra, as vezes não tem nem uma nem outra, e tem os que têm tudo e não estão sabendo valorizar, vão acabar dançando e se rasgando de arrependimento.
– Chega, vou esconder todos os materiais cortantes que você tem em casa!!
Vamos levantar esse astral, comprar várias caixas daquela pílula azul milagrosa, rever a lista das meninas que vamos convidar para a festa e passar no buffet para fechar o cardápio. Falta um mês ainda, mas temos que deixar tudo certinho, redondo, esse aniversário tem que bombar, afinal, não é sempre que se faz 100 anos!!!! Bora!!

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